CAPÍTULO VII

Comunidades tecnológicas, movimentos sócio-técnicos e esfera pública.

"Relações de saber e produção de saber apontam a saída para escapar às relações mercantis e à sociedade da mercadoria desde que possam se desenvolver livremente sem o constrangimento da valorização. Os que desenvolvem software livre e a rede livre vivenciam a possibilidade concreta dessa saída, e encontram ao mesmo tempo os limites que os poderes dominantes têm-se esforçado para impor à sua atividade. É uma luta no interesse de toda a sociedade. Nessa luta, os participantes do movimento do software livre sempre se posicionam com um pé no campo dos adversários." (André Gorz)

Habermas indicou que uma esfera pública burguesa constituiu-se como um espaço de manifestação e de expressão de pessoas privadas reunidas em um público para discutir e influir sobre as decisões do Estado, independente deste. A esfera pública burguesa, nos séculos XVII e XVIII, evoluiu de uma esfera pública literária que por sua vez desenvolveu-se no ambiente dos cafés, saloons e comunidades comensais. Esses tiveram grande importância para o espraiamento da imprensa, instrumento essencial da opinião pública. Somente na Paris de 1789 exitiam mais de 200 jornais. Segundo Habermas, no período anterior, de 1680 à 1730, os cafés e os saloons tornaram-se centros da crítica que era inicialmente literária e que depois assumiu também uma dimensão política. A esfera pública literária teve papel relevante, mesmo em uma sociedade onde predominava o analfabetismo, pois era o espaço de articulação dos burgueses que dominavam a norma culta, a língua dos aristocratas. Os burgueses buscavam assim igualarem-se à aristocracia e disseminar seus valores e ideais.

Neste capítulo, buscarei demonstrar a hipótese de que um movimento sócio-técnico que domina a linguagem essencial da sociedade em rede -- softwares, protocolos de rede e padrões --, contrário a sua privatização e ao obscurantismo de sua essência, reúne-se em comunidades ciberespaciais de compartilhamento, que desenvolvem ações e um discurso crítico contra a propriedade intelectual. Dada a importância vital para o capitalismo informacional do sistema de propriedade hegemônico e dado que a propriedade intelectual não pode existir sem a legislação e o aparato jurídico-repressivo do Estado, as ações e idéias do movimento de software livre chocam-se contra o status quo e tornam-se assim um movimento cultural planetário de novo tipo, essencialmente político, por questionar os fundamentos teóricos, culturais e econômicos da propriedade de idéias.

Tal como nos cafés descritos por Habermas, uma nova esfera pública conforma-se, não literária, mas uma esfera pública tecno-social, uma esfera pública de homens livres que não se concentram mais em burgos, mas conectam-se no ciberespaço, em listas e fóruns próprios que se constituem como uma esfera pública inicialmente hacker. Da prática hacker de compartilhamento de códigos-fonte de softwares, a comunidade de software livre inspirou o surgimento de uma ação similar em outras áreas, tais como na música, com o Creative Commons e na consolidação de repositórios públicos de conhecimento, como a Wikipedia, entre outros tantos exemplos. Os organizadores do Fórum Social Mundial, realizado na Índia em 2004, utilizaram pela primeira vez os programas de computador livres por constatarem que os movimentos sociais anti-globalização estavam aprisionados pelas linguagens informacionais controladas pelas corporações concentradoras de riqueza e poder e que era, portanto, necessário romper com o modelo de tecnologias proprietárias.

Os hackers articulam-se em comunidades virtuais, "os novos cafés e saloons", para escrever códigos e disponibilizá-los pelo planeta. Desta prática surgem encontros, listas de discussão, fundações, associações virtuais e presenciais, com uma filosofia anti-proprietária e de crítica ao fechamento e bloqueio de códigos. Como todo grande movimento, a heterogeneidade é uma de suas principais características, por isso interessa-nos destacar aqui a comunidade que traz consigo os elementos mais completos da filosofia e ética hacker; a comunidade Debian. Esta comunidade é um dos "nós" da esfera pública inicialmente hacker e da politização do movimento sócio-técnico.

Em geral, a discussão da relação entre tecnologia e sociedade passa necessariamente pelo posicionamento diante da teoria crítica debatida pela Escola de Frankfurt. Anthony Giddens, ao discutir o pensamento crítico de Marcuse, afirmou que "o poder subversivo da razão tinha sido subvertido no 'pensamento unidimensional' da racionalidade tecnológica". (GIDDENS, 268) Mas é exatamente da razão instrumental no interior de seu corpo mais tecnológico que atualmente emerge um dos mais contundentes discursos de liberdade e que retoma os valores de uma "filosofia vinculada a verdade à vida boa, aos modos possíveis de viver uma existência livre e compensadora". Da busca da melhor forma de desenvolver códigos para computadores é que a idéia libertária de Richard Stallman consolidou-se em um método de criação e manutenção coletiva de software chamado por Eric Raymond de "bazar", contra a rigidez empobrecedora do método hierarquizado denominado "catedral". A idéia de um debate de pessoas autônomas que exercem suas competências comunicativas ganha na rede uma dimensão mundial e, na confecção compartilhada de softwares, a redemocratização da liguagem básica da sociedade em rede, propondo sua desprivatização e devolução ao campo da produção coletiva do conhecimento humano.

A razão puramente instrumental em termos de fins e meios é radicalizada no contexto dos bens intangíveis e acaba redescobrindo que o diálogo e o compartilhamento do conhecimento é a melhor forma de se encontrar boas soluções em tecnologia da informação. Seja como dizia Linus Torvalds "fiz tudo apenas por diversão" ou como dizia Stallman "ajudar as outras pessoas é a base da sociedade"1, o movimento de compartilhamento vai se construindo principalmente a partir da licença virótica baseada no copyleft que contamina os softwares e os impede de apropriação privada. A rede acaba viabilizando comunidades de hackers que trocam informações, idéias, códigos-fonte e opiniões técnicas, filosóficas e também políticas, tais como: contra o patenteamento de software na Europa e o endurecimento das legislações de propriedade intelectual no mundo, contra o DMCA2, pela liberdade do jovem norueguês Jon Johansen, ou simplesmente Jon DVD -- inventor da ferramenta DeCSS? que quebrava o código que os filmes rodassem em qualquer leitor de DVD -- e tantas outras campanhas.

André Gorz considera existir uma "oposição enfática ao desmonte da coletividade, à modernização catastrófica dos países em desenvolvimento, à privatização do saber, da produção do conhecimento e do bem comum. Entre seus vários ativistas destacam-se, por sua natureza bombástica particularmente eficaz, o movimento do software livre e o "hacker". Sua oposição é ativa na esfera mais importante do capital: a esfera da produção, da disseminação, da socialização e da organização do saber. Eles são os "dissidentes do capitalismo digital". (...) A superioridade dos softwares que eles produzem comprova que a maior criatividade possível entre os homens é atingida quando, livres da obrigação de tirar proveito e da disputa com a concorrência, eles podem desenvolver seus saberes e suas capacidades de modo livre e cooperativo. Na "práxis"desses dissidentes distinguem-se os pressupostos de acordo com os quais as relações sociais do conhecimento poderiam ser o fundamento de uma verdadeira sociedade do saber. Em contraste com as concepções correntes, o saber aí não aparece como um saber objetivado, composto de conhecimentos e informações, mas sim como atividade social que constrói relações comunicativas não submetidas a um comando." (Gorz, 12)

Para melhor definir o que vem a ser esta mobilização tecnico-social pelo software livre, será preciso avançar nos conceitos de comunidade, movimento e esfera pública. Teremos que descrever como uma mobilização inicialmente hacker que extrapolou as fronteiras da especialidade técnica, ou seja, do mundo estrito do sistema, e avançou para exigir a liberdade sobre o controle da inteligência contida nas linguagens básicas da sociedade em rede: os protocolos, padrões e softwares.

Esta mobilização pela liberdade do conhecimento tecnológico trouxe para o campo da tecnologia a prática típica da ciência. A ciência trabalha sobre um método que considera o saber científico como elemento cumulativo, ou seja, este saber segue avançando sobre o saber anterior. A mobilização pelo software livre pratica a idéia de que códigos bons não se desperdiçam, devem ser compartilhados, apoiados e melhorados por uma comunidade. Assim a comunidade de software livre vê o saber tecnológico também como cumulativo. Os softwares, mesmo quando lançados individualmente, são elementos vitais na formação das comunidades de desenvolvedores e apoiadores de software livre. Comunidade é um termo polissêmico. Pode ser entendida no sentido menos abrangente. hackers, integrantes das antigas BBSs3, bem como, desenvolvedores de determinados softwares consideram-se membros de comunidades.

O conceito de comunidade não é consensual em ciências sociais. Muitas são suas definições e classificações, entretanto, boa parte delas vinculam a comunidade a um território especificamente limitado e a proximidade de seus membros. Em geral, sociólogos empregam este termo para grupos de pessoas que convivem numa associação face a face, em um espaço geográfico pouco extenso. A singularidade e identidade distintas diante dos outros são também frequentemente apontadas como características de uma comunidade. Obviamente a acepção vinculada à idéia de espaço e de presença física é muito limitada para enquadrar o fenômeno das comunidades distantes e ligadas a partir da comunicação mediada por computador.

O sociólogo alemão Ferdinand Tönnies contrapunha duas categorias importantes em sua análise sociológica: Gemeinschaft, frequentemente traduzida por comunidade, e, Gesellschaft, geralmente traduzida por sociedade. A comunidade seria o agrupamento humano em que predominaria a economia doméstica, a divisão do trabalho pouco complexa e a sociabilidade baseada nas relações de prestígio e parentesco. Já a sociedade seria composta de relações secundárias, ou seja, mediatizada pelos contratos e uma complexa divisão do trabalho. O emprego aqui realizado não segue esta proposição de Tönnies, pois está mais relacionado com uma organização voluntária dentro da sociedade complexa.

Thomas Kuhn em Estrutura das Revoluções Científicas trabalhou a noção de comunidade mais próxima a que aqui é empregada. Para ele, a ciência normal aglutina uma comunidade profissional de cientistas. Ou seja, a palavra comunidade é empregada para tratar de um agrupamento não-territorial de pessoas que vivem do desenvolvimento ou da produção científica. Kuhn considera que a comunidade científica é imensamente eficiente para resolver problemas ou quebra-cabeças definidos dentro de um paradigma científico. Em geral, as revoluções científicas são episódios de desenvolvimento não-cumulativo em que o paradigma antigo é substituído por um novo, parcialmente ou totalmente incompatível com o anterior. Para que o novo paradigma instale-se, Kuhn vê a necessidade de subdivisão na comunidade científica. Parte dela deve aderir ao novo paradigma e depois para que ele consolide-se é necessário que a comunidade majoritariamente o encampe. Podemos entender paradigma como um modelo ou padrão aceito e praticado pela comunidade científica. A idéia de comunidade é fundamental para a explanação de Kuhn.

A diferença mais importante da noção de comunidade aqui utilizada para a empregada por Kuhn reside principalmentalmente no fato da comunidade de software livre não ser um agrupamento profissional. Trata-se de um agrupamento voluntário de pessoas que defendem determinada conduta diante da propriedade do conhecimento e que seguem comportamentos baseados em maior ou menor grau em uma ética hacker. Sem dúvida alguma, nasceu estritamente como uma comunidade de hackers. Formou-se como uma comunidade não-presencial que se reúne mais em conexões no ciberespaço do que no contexto face a face. Sua origem está nas primeiras listas de discussão de tecnologia que se formaram nos anos 80. A primeira iniciativa nasceu com Stallman, em 1985, que, a partir de uma das inúmeras listas de discussão virtuais, convocou a todos a apoiar o movimento de desenvolvimento de softwares não-proprietários,.

Alguns ativistas como Howard Rheingold classificaram a comunidade virtual como o encontro de pessoas no ciberespaço em torno de provedores de acesso à comunicação mediada por computador. Rheingold apontou que "a princípio pareceu-me fria a idéia de uma comunidade apenas acessível através de um ecran de computador, mas depressa constatei a emoção que o correio eletrônico e as teleconferências podem causar." (RHEINGOLD: 13) Definiu as comunidades virtuais como "os agregados sociais surgidos na Rede, quando os intervenientes de um debate levam-no por diante em número e sentimento suficientes para formarem uma teia de relações pessoais no ciberespaço." (18)

A comunidade de software livre é uma comunidade virtual. Ela é composta de inúmeras pequenas e grandes comunidades de hackers, educadores e disseminadores da cultura do compartilhamento de software. As principais comunidades de software livre são aquelas que se aglutinam em torno do desenvolvimento de um software específico, tal como a comunidade Debian ou a comunidade Slackare, ou ainda, a comunidade Gnome, entre outras milhares.

A mobilização técnica de hackers para desenvolver softwares de modo colaborativo gerou milhares de comunidades virtuais que unidas conformam a grande comunidade dos que defendem, usam e desenvolvem software livre. Estas cibercomunidades distribuídas por quase todos os países são comunidades transnacionais e constituem um movimento político-cultural contra o modelo hegemônico de propriedade das idéias ou dos bens imateriais. Como comunidades, os laços que ligam seus integrantes não se vinculam à imagem de uma fraternidade nacional. Gustavo Lins Ribeiro defendeu que "o transnacionalismo tipicamente manifesta-se através de uma articulação diferente do espaço real e da criação de um novo domínio de contestação política e ambiência cultural que não são equivalentes ao espaço que normalmente experimentamos: os assim chamados ciberespaço e cibercultura."(RIBEIRO, 2000b) Ribeiro considera que a Internet é a base tecno-simbólica para a emergência de comunidade transnacional imaginada-virtual.

Na base da argumentação de Ribeiro está o pensamento de Benedict Anderson sobre a existência de comunidades imaginadas. Anderson desenvolveu esta noção de comunidade para lidar e buscar entender o que vem a ser o fenômeno nacional. Anderson escreveu que "todas as comunidades maiores do que as aldeias primordiais onde havia contato cara a cara (e talvez mesmo estas) são imaginadas. As comunidades deverão ser distinguidas, não pelo caráter falso/genuíno, mas pelo modo como são imaginadas". (ANDERSON: 26) Anderson observa que "a nação é imaginada como uma comunidade porque, independentemente da desigualdade e da exploração reais que possam prevalecer em cada uma das nações, é sempre concebida como uma agremiação horizontal e profunda. Em última análise, é essa fraternidade que torna possível que, nos últimos dois séculos, tantos milhões de pessoas, não tanto matassem, mas quisessem morrer por imaginários tão limitados." (ANDERSON: 27)

Apesar de Ribeiro diferenciar a comunidade imaginada da virtual, esta diferenciação aqui é pouco importante, pois a classificação das milhares de comunidades de desenvolvedores de software livre, como comunidades imaginadas (cujo pertencimento é culturalmente construído) em uma grande comunidade, em seus fóruns, sites e em listas de debates comuns é que interessam neste contexto. Elas formam uma mobilização cultural de caráter transnacional, por tratar de temas políticos; e global, por interferir na esfera econômica, como distribuidores de riqueza e de valores contidos em seus códigos. Por isso, prefiro considerar uma mobilização de caráter mundial ou planetária por seu múltiplo caráter: cultural, social, tecnológico, político e econômico.

Ribeiro retomou a tese de Stone de que as tecnologias de comunicação são também tecnologias de criação de comunidades. (STONE, 1992: 609-621) Exemplificando: comunidades de radioamadores e de ouvintes de rádios e ondas curtas são antigas e também espraiadas pelo planeta. Entretanto, nenhuma comunidade virtual e imaginada até então tinha um projeto prático e contestatório com o potencial politico anti-hegemônico, como o encontrado nas comunidades de software livre. É possível definir a comunidade de software livre como um agrupamento voluntário, imaginado e virtual, em geral mundial, que desenvolve, mantém e dissemina códigos de modo colaborativo e defende a liberdade para o compartilhamento do conhecimento tecnológico como princípio condutor.

Já o denominado movimento de software livre é composto por inúmeras comunidades que se identificam pela distinta forma de produzir softwares, pela transparência dos seus códigos-fonte, e principalmente pela diferença e contraposição ao modelo de negócios baseado na apropriação privada do conhecimento. As listas de discussão dessas comunidades, os repositórios comuns de software compartilhado, os sites para download e informação sobre os softwares, os sistemas de controle de versões, acabam por tornarem-se espaços públicos ou coletivos que retiram do terreno privado e estritamente mercantil o debate sobre esses intermediários da inteligência humana na era da informação. Acabam por constituirem-se em novos espaços da sociedade civil contra a apropriação e bloqueio do conhecimento tecnológico, promovido por Estados em apoio às exigências dos monopólios empresariais de algoritmos, ou seja, as mega-corporações de software.

O conceito habermasiano de espaço público, no sentido de uma quase-esfera pública, pode ser aqui empregado, embora não sem uma certa dificuldade. A esfera pública integra o mundo da vida, ou seja, este conceito habermasiano coloca determinados limites em seu uso. Podemos entender a importância de sua aplicação neste contexto e, ao mesmo tempo, as dificuldades de seu uso com esta passagem escrita por Arato e Cohen que coloca a existência de várias dimensões distintas no mundo da vida:

"ele se refere a um reservatório de tradições implicitamente conhecidas e de pressupostos automáticos que estão imersos na linguagem e na cultura e são utilizados pelos indivíduos na sua vida cotidiana. Por outro lado, o mundo da vida, de acordo com Habermas, contém três componentes estruturais distintos: a cultura, a sociedade e a personalidade. Na medida em que os atores se entendem mutuamente e concordam sobre sua condição, eles partilham uma tradição cultural. Na medida em que coordenam suas ações por intermédio de normas intersubjetivamente reconhecidas, eles agem enquanto membros de um grupo social solidário. Os indivíduos que crescem no interior de uma tradição cultural e participam da vida de um grupo internalizam orientações valorativas, adquirem competência para agir e desenvolvem identidades individuais e sociais. A reprodução de ambas as dimensões do mundo da vida envolve processos comunicativos de transmissão da cultura, de integração social e de socialização" (ARATO e COHEN, 1994:153).

O mundo da vida é diferente do sistema econômico e do sistema estatal. Integra a sociedade civil e é composto de vários elementos, inclusive organismos de mediação entre Estado e mercado. No mundo da vida é possível surgir a reivindicação de novos direitos e novas formas de comportar-se diantes das instituições de poder. O movimento do software livre é composto também por pessoas e empresas que buscam lucros no mercado, mas como movimento (no sentido de mobilização sócio-técnica que tem como objetivo o desenvolvimento de soluções tecnológicas não-proprietárias) coloca-se como portador de uma nova conduta para desenvolver e usar software no dia-a-dia e choca-se contra o pensamento e as práticas hegemônicas de propriedade. O movimento do software livre reúne coletivos auto-organizados cuja existência e distribuição pela rede de compartilhamento, além de impactar o sistema econômico em uma lógica da gift economy, também impacta o sistema político ao contrapor-se ao monopólio privado do conhecimento.

Todavia, o conceito habermasiano de esfera pública precisa ser problematizado na sociedade em rede. Isso é necessário principalmente pela exigência de Habermas presente na idéia de mundo da vida do uso da linguagem simples e dominada por todos. Nesse sentido, três constatações enfraquecem a aplicação do conceito habermasiano na era informacional: 1) a sociedade em rede é uma sociedade em que as linguagens especializadas, não-naturais, vão adquirindo a condição de linguagens básicas do uso cotidiano, ou seja, passam a ser intermediários da razão comunicativa e da inteligência humana, conforme mostramos na Parte I; 2) as interações simples e a compreensibilidade geral, fundamentais para o exercício da competência comunicativa dos membros de uma sociedade, estão sendo afetadas pela elaboração especializada de padrões, protocolos e softwares, sem os quais boa parte das comunicações entre pessoas comuns não podem ser realizadas; 3) A esfera pública só tem sentido político se nela as 'pessoas privadas reunidas em públicos' forem capazes de opinar e posicionarem-se, a partir do uso da razão, sobre assuntos que movem o sistema político ou sobre fatos e ações que afetam suas vidas. Entretanto, como advogou Lawrence Lessig, no ciberespaço "os códigos são a lei". As pessoas mal sabem que os códigos definem seu grau de liberdade na interação eletrônica. Vamos à demonstração.

O que Habermas define como esfera pública? "A esfera pública pode ser descrita como uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomada de posição e opiniões; nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos." (HABERMAS, 1997: 92)

Qual a linguagem usada na esfera pública habermasiana? "Do mesmo modo que o mundo da vida tomado globalmente, a esfera pública se reproduz através do agir comunicativo, implicando apenas no domínio da linguagem natural; ela está em sintonia com a compreensibiliade geral da prática comunicativa cotidiana." (HABERMAS, 1997: 92)

Para Habermas, o mundo da vida só comporta as interações simples? "Descobrimos que o mundo da vida é um reservatório para interações simples; e os sistemas de ação e saber especializados, que se formam no interior do mundo da vida, continuam vinculados a ele. Eles se ligam a funções gerais de reprodução do mundo da vida (como é o caso da religião, da escola e da família), ou a diferentes aspectos da validade do saber comunicado através da linguagem comum (como é o caso da ciência, da moral, da arte)." (HABERMAS, 1997: 92)

A esfera pública não se especializa nunca? "Todavia, a esfera pública não se especializa em nenhuma destas direções; por isso quando abrange questões politicamente relevantes, ela deixa a cargo do sistema político a elaboração especializada". (HABERMAS, 1997: 92) Para Habermas, toda elaboração especializada foge do campo de ação da esfera pública.

O agir orientado pelo entendimento na comunicação mediada pelo computador pode ser limitado pelos protocolos de rede e por uma série de proibições ou limitações sobre o que falar, quais conteúdos enviar, em que formatos as pessoas obrigatoriamente devem se comunicar, entre outras várias imposições políticas apresentadas como necessidades técnicas para o bom funcionamento do sistema. Estas exigências podem interferir no livre uso da razão comunicativa e nos conteúdos das mensagens que se quer disseminar.

Os softwares (sem os quais os computadores são inúteis) são um conjunto ininteligível de linhas de códigos para a maioria das pessoas. Por outro lado, estas mesmas pessoas utilizam-nos como elemento essencial de seu dia-a-dia sendo expostas as suas determinações, ou melhor, às determinações imbutidas pelos especialistas, pelos programadores que desenvolveram aquele programa computacional. A própria privacidade, identidade e autonomia podem ser manipuladas, descobertas, apagadas, pelos softwares empregados como intermediários essenciais da vida cotidiana neste universo digital.

Para aumentar a segurança da comunicação em rede, tem crescido o uso de tecnologias que também tornam-se intermediários indispensáveis da vida no ciberespaço. A criptografia assimétrica é uma destas novas exigências da vida digital. No ciberespaço, ambiente de incerteza, onde não sabemos efetivamente com quem estamos nos comunicando, o uso da criptografia assimétrica tornou-se fundamental.

O que vem a ser a criptografia simétrica? Em 1976, dois matemáticos conseguiram provar que seria possível utilizar uma chave para cifrar e outra chave para decifrar uma mensagem. Assim, foi constatado que era possível superar a difícil missão de distribuir as chaves de decifragem somente para os destinatários corretos. Seguindo a lógica de um algoritmo de criptografia assimétrica, um software gerou um par de chaves criptográficas para realizar funções inversas. Se uma chave cifrou somente a outra chave do par seria capaz de decifrar.

Assim, era possível gerar uma chave secreta e guardá-la em um smart card ou em um token e distribuir o seu par pela Internet, chamando-a de chave pública. Toda vez que uma mensagem for decifrada com esta chave pública, ela só pode ter sido escrita pelo seu par, ou seja, pela chave privada. Este é o princípio que viabilizou a assinatura eletrônica. Quando uma Autoridade Certificadora (AC) afirmar que o par de chaves que utilizo para assinar as mensagens ou para me autenticar no meu banco, pertence de fato a minha pessoa, tenho minha assinatura digital certificada, ou melhor, tenho um certificado digital.

Na comunicação mediada por computador, em uma sociedade em rede, um dos objetivos do uso de assinaturas e certificados digitais é obter a certeza de autenticidade e integridade das mensagens. Para isso utiliza-se um ramo muito especializado da matemática, a criptografia. Uma das características da criptografia assimétrica é o denominado não-repúdio. Sem isso, não teria sentido alguém usar a criptografia como base da comunicação segura. O não-repúdio significa que uma mensagem decifrada com uma determinada chave pública só pode ter sido cifrada por seu par privado. Assim, uma pessoa que usou sua chave privada para acessar um site governamental ou comercial não poderá afirmar que não realizou esta ação. Exceto se ela for capaz de provar que houve uma falha no algoritmo gerador ou quebra da chave. Como é muito difícil para uma pessoa comum conseguir ter conhecimentos extremamente sofisticados que a permitam contestar um criptossistema, temos aí uma das muitas situações em que se exige o apoio de um especialista.

Por isso, aqui mais uma vez vale o argumento de Lawrence Lessig, na sociedade da informação cada vez mais "o código é a lei". Para a sociedade defender-se, ela precisa ter consciência de que a sociedade em rede é uma sociedade tecnodependente e efetivada por meio de intermediários da inteligência humana e da razão comunicativa. Por isso, os programas, algoritmos, protocolos e padrões precisam ser abertos, transparentes e plenamente auditáveis. Cidadãos comuns não são capazes de discutir detalhes tecnológicos que compõem seus instrumentos e suas linguagens informacionais básicas, mas podem definir como querem que estes códigos, intermediários e linguagens sejam socialmente controlado .

Um exemplo sobre como lidar com elementos extremente especializados, mas que envolvem e impactam o cotidiano da sociedade ocorreu nos Estados Unidos. Warwick Ford e Michael Baum, com base em uma decisão da Corte Suprema sobre o caso Daubert versus Merrel Dow Pharmaceuticals, afirmou que uma metodologia ou argumento de especialistas da ciência deve ser aceita quando concordar com quatro fatores: 1) a metodologia pode ser e foi testada; 2) a metodologia foi submetida à revisão e à publicação; 3) a porcentagem de erro na metodologia é bem conhecida; 4) a metodologia recebeu aceitação dentro da comunidade científica (FORD e BAUM: 364-365). Em resumo, na sociedade em rede a garantia dos direitos dos cidadãos exigem especialistas, de um lado, e códigos e processos abertos e transaparentes, de outro.

O conceito de esfera pública inicialmente hacker que evolui para uma esfera pública transnacional, como defende Gustavo Lins Ribeiro, envolvendo leigos iniciados nas linguagens básicas da informática (competência comunicativa para usar softwares), pode ser empregado se tivermos consciência de que esta esfera assentaria-se sobre um conjunto de protocolos e softwares limitadores do processo de interação e de uso da comunicação. Uma das ações comunicativas nesta esfera é alertar a todos os seus integrantes de que o espaço virtual exige especialistas que permanentemente devem defendê-lo como espaço livre e aberto contra as limitações, bloqueios, censuras e violações, que podem ser impostas anti-democraticamente e subrepticiamente por Estados ou corporações.

Tal como no princípio foi necessário aos burgueses defenderem a liberdade da imprensa contra a censura do Estado, agora é necessário defender a transparência dos protocolos, padrões e softwares para que o espaço virtual possa ser considerado um espaço público virtual, essencial a sua consolidação como esfera pública. Nesse sentido, um dos principais processos de consolidação da Internet, principal agregador da comunicação mediada por computador, como esfera pública, está nas comunidades de software livre. Tal como na esfera pública inicialmente literária, dos séculos XVII e XVIII, podemos observá-las como uma esfera pública inicialmente hacker do século XXI.

Habermas escreveu que "a esfera pública retira seus impulsos da assimilação privada de problemas sociais que repercutem nas biografias particulares. Neste contexto particular é sintomático constatar que, nas sociedades européias do século XVII e XVIII, se tenha formado uma esfera pública burguesa moderna, como "esfera das pessoas privadas reunidas e formando um público". Do ponto de vista histórico, o nexo entre esfera pública e privada começou a aparecer na forma de reunião e de organização de um público leitor, composto de pessoas privadas burguesas, que se aglutinavam em torno de jornais e periódicos." (HABERMAS, 1997: 98)

Para utilizar o ciberespaço, também como esfera pública as pessoas privadas conectadas precisarão assimilar que, ao contrário da sociedade industrial, a sociedade em rede apresenta problemas complexos de comunicação, que exigem de um lado especialistas e de outro a transparência completa dos códigos que intermediam a comunicação humana. Para tal, a questão da liberdade para conhecer profundamente os códigos que são socialmente usados choca-se com o modelo hegemônico de propriedade das idéias. Os hackers foram os primeiros a demonstrar que a opacidade dos códigos realiza-se contra a liberdade da sociedade.

O questionamento à propriedade intelectual é um questionamento de ordem cultural. O modelo de desenvolvimento compartilhado nasce da cultura hacker e clama pela solidariedade e capacidade como qualidades de um comportamento que substitui a idéia de propriedade privada pela construção coletiva de uma relação que Lévy captou como obra aberta. O movimento do software livre coloca-se em conflito com o monopólio mundial de software e com sua ação de bloqueio do conhecimento tecnológico.

O movimento de desenvolvimento e disseminação de programas de computador abertos e não-proprietários é um movimento colaborativo, socio-técnico que assumiu proporções cultural e socialmente relevantes, além de espalhar-se por todos os continentes e quase todos os países do planeta. O movimento do software livre tornou-se um dos novos movimentos mundiais mais críticos a um dos pilares básicos do processo de reprodução capitalista: seu modelo e sua teoria hegemônica da propriedade intelectual. É um movimento socio-técnico formado por diversas comunidades.

As comunidades de desenvolvedores de software são a base principal desta grande rede, que estamos denominando movimento de software livre. Tais comunidades têm tamanho variado e podem atingir milhares de integrantes, como a do GNU/Linux. Por outro lado, vários jovens desenvolvedores lançam projetos de software e em seguida pedem apoio nas listas de hackers e nas diversas comunidades. Milhares destes projetos não atraem muitos outros apoiadores e acabam permanecendo com dois ou três desenvolvedores. Apesar disso, estas micro-comunidades ligam-se à grande rede da macro-comunidade dos que desenvolvem códigos de modo aberto e compartilhado.

Alfredo Romeo e Juantomás Garcia são desenvolvedores espanhóis, autores de La Pastilla Roja: software libre hacia la revolución digital, uma alusão ao filme Matrix. Sua descrição sobre as comunidades de software livre e sua constituição é bastante elucidativa:

"O modelo de desenvolvimento de software livre prova ser um excelente modelo de desenvolvimento para todas as atividades relacionadas à criação de códigos, assim como com a melhoria dos mesmos, a busca de erros, etc., mas a pré-condição para isto é ter um desenvolvimento potencial que seja promissor. A partir dai e em função da criticalidade do desenvolvimento e da comunicação que se faça a terceiros, apoiadores de todo o mundo poderão se interessas pelo desenvolvimento (...) Os projetos podem evoluir de diferentes maneiras em função de distintos fatores como a tecnologia, a comunicação, o nicho de mercado ao qual está dirigido, etc. Muitas comunidades começaram a formar-se normalmente quando um desenvolvedor apresentou a necessidade concreta de uma determinada aplicação e avisou os outros desenvolvedores de seu projeto, aos que sempre se uniram e acreditam que podem aportar ou extrair conhecimentos. Uma vez que o deenvolvimento começa a tomar forma, a criação de uma comunidade forte de desenvolvedores é a chave para o êxito do mesmo. (...) Em outras ocasiões...empresas liberam códigos convertendo aplicações anteriormente proprietárias em livres e formando comunidades ao redor dos mesmos. Este é o caso de aplicações como Opengroupware ou o OpenOffice?.org. Entretanto, existem outras formas em que se pode começar os projetos livres. Mitch Kapor, investidor de risco, lançou o projeto Chandler como aplicação que pretende se converter em um gestor de informação pessoal livre, mediante a aplicação de 5 milhões de dólares em um ente legal (...)".4

Quem são os integrantes destas comunidades? São principalmente:

INDIVÍDUOS INSTITUIÇÕES ESTUDANTES; DESENVOLVEDORES FREE LANCERS (HACKERS E TÉCNICOS); EMPRESÁRIOS; ACADÊMICOS/PESQUISADORES; USUÁRIOS EM GERAL. EMPRESAS; GOVERNOS; INSTITUTOS DE PESQUISA; UNIVERSIDADES; DISTRIBUIÇÕES.

Em 2002, foi realizada pela Berlecon Research e pelo International Institute of Infonomics, da Universidade de Maastrich, um estudo baseado principalmente em 2784 entrevistas, para identificar o perfil da comunidade européia de software livre. Um conjunto de questões tratavam das motivações dos desenvolvedores e das razões que os levaram a integrarem-se no movimento do software livre. Notamos que 78,9% dos membros da comunidade de software livre européia, por eles denominado de Free Libre Open Source Software (FLOSS), aderiram à comunidade para aprender e desenvolver suas habilidades. Outros 49,8% entraram na comunidade para compartilhar conhecimentos e apenas 4,2% afirmam que buscavam ganhar dinheiro. Quase um terço responderam que o software não devia ser proprietário. A solidariedade é um elemento forte, uma vez que 67,2% responderam que as razões para permanecerem na comunidade é "compartilhar conhecimentos e habilidades". (GHOSH, 2002 / GARCIA e ROMEO, 2004:49)

Uma pesquisa, seguindo uma metodologia similar baseada principalmente em entrevistas à comunidade brasileira de software livre e aberto, foi encomendada pelo Ministério de Ciência e Tecnologia do Brasil à SOFTEX e à Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Uma enquete eletrônica foi respondida por 3.657 desenvolvedores brasileiros de software livre e nela podemos constatar que as razões alegadas para o desenvolvimento e para a distribuição de software livre e de código aberto seguem a mesma lógica européia. Dos entrevistados, 49,2% responderam que seu objetivo era desenvolver novas habilidades; 46,4% afirmaram estar interessados em compartilhar conhecimento; 34,1% disseram buscar resolver problemas sem soluções proprietárias. O elemento ideológico do compartilhar está bastante ligado ao elemento da auto-capacitação (desenvolver novas habilidades), sendo que este último lidera a preferência tanto na pesquisa realizada na Europa quanto no Brasil.

Esta pesquisa remete-nos para a questão da ética hacker. Castells já havia apontado que “a cultura da Internet é uma cultura feita de uma crença tecnocrática no progresso dos seres humanos através da tecnologia, levado a cabo por comunidades de hackers que prosperam na criatividade tecnológica livre e aberta, incrustada em redes virtuais que pretendem reinventar a sociedade, e materializada por empresários movidos a dinheiro nas engrenagens da nova economia.” (CASTELLS, 2003: 53)

Mas, o que seria esta cultura hacker? Castells vê a cultura como uma construção coletiva, acima das preferências individuais, composta de valores e crenças que conduzem comportamentos. Neste sentido, a cultura hacker é uma cultura meritocrática baseada no conhecimento e na capacidade de realizar e de compartilhar códigos. O respeito ao poder do conhecimento é visível, bem como ao valor da solidariedade que está inserido no processo de colaboração. Um hacker é o seu mérito e este deve ser reconhecido pela sua comunidade de iguais. A cultura hacker constrói-se sobre a cultura tecnomeritocrática. Segundo Castells, esta última nasceu da big science e do mundo acadêmico.

O comportamento cultural no contexto de uma comunidade meritocrática não seria possível sem a construção de uma ética própria. O filósofo norueguês Pekka Himanen ao estudar a ética hacker percebeu que os hackers não organizam suas vidas em rotinas e com a lógica da otimização do dia de trabalho. Constatou que sua organização segue um certo fluxo de trabalho criativo misturado a outras paixões. O trabalho de um hacker é composto de paixão e liberdade. Não se busca títulos, graduações, hierarquias e organização burocrática. A relação desta ética com o dinheiro é extremamente distinta, como relata Himanen:

“Na ética hacker, (...) o elemento de destaque relativa a dinheiro é que muitos ainda seguem o hackerismo original, no qual não vêem o dinheiro como valor em si, sendo suas ações motivadas pela meta do mérito social e do compartilhamento. Esses hackers desejam realizar suas paixões em conjunto, desejam criar algo de valor para a comunidade e serem reconhecidos por isso pelos seus pares. Eles permitem que o fruto do seu trabalho seja usado, desenvolvido e testado por qualquer um, de sorte que todos possam aprender uns com os outros. Embora a maior parte do desenvolvimento tecnológico na era da informação tenha ocorrido dentro de tradicionais relações capitalistas e projetos governamentais, uma parte significativa – incluindo símbolos do nosso tempo como a Internet e o computador pessoal – não existiriam sem hackers que compartilharam suas criações com outros.”5(Himanen, 2001: 140)

A liberdade, como valor superior ao dinheiro, e a colaboração, como meio de ajudar e ao mesmo tempo de ser reconhecido pode explicar o fundamento que está no centro de gravidade do movimento de software livre. Ou seja, contribuir com o conhecimento coletivo é a forma de realizar-se como ser que integra aquela comunidade. Apoiar e resolver problemas que estão sendo enfrentados pelos outros é essencial para demonstrar competência e capacidade que, por sua vez, para serem socialmente ou comunitariamente reconhecidos, exigem efetivação em contribuições reais. Assim, o jovem paranaense Marcelo Tossati tornou-se o mantenedor do Kernel 2.4 do Linux. Não foi sua titulação acadêmica nem uma indicação familiar ou influência política que o levou ao topo de uma comunidade de mais de 150 mil desenvolvedores espalhados pelo planeta. Seu intenso trabalho de revisão e de solução de problemas do sistema operacional Linux, sua presença no trabalho coletivo de melhoria do código e sua competência ao escrever as linhas de programação é que o tornaram, aos 20 anos, uma sumidade no mundo da tecnologia da informação. Marcelo Tossati não realizou curso superior, ao menos até o momento da conclusão deste texto.

Eduardo Maçan não se tornou um dos primeiros (talvez o primeiro, ele mesmo tem dúvida sobre isto) desenvolvedores brasileiros aceito na comunidade Debian, que distribui uma das versões do GNU/Linux, por ser estudante da Ciência da Computação, mas pela qualidade e intensidade de suas contribuições. Pouco vale ter doutorado e não conseguir resolver um problema específico. Pouco vale saber muito se o indivíduo não tiver o ímpeto de ajudar as pessoas da comunidade a encontrar soluções. Este espírito de competência colaborativa que executa a inteligência coletiva de uma comunidade foi o que levou o engenheiro do Centro de Computação da Unicamp, Rubens Queiroz, a criar o Rau-Tu, uma ferramenta colaborativa de perguntas e respostas. O Rau-Tu permite que colaboradores respondam perguntas formuladas por visitantes. O uso é livre e gratuito e o sistema pode ser obtido (baixado) do próprio site e usado nos termos da licença GPL (General Public Licence). O interessante é que este sistema passou a ser uma ferramenta de trabalho em alguns dos departamentos da Unicamp. Quando alguém tem uma dúvida, ela é postada no Rau-Tu e a resposta é obtida muitas vezes em minutos. O sistema possui um ranking de colaboradores em cada uma das áreas, também chamadas de comunidades, que o compõem. O que tem possibilitado uma certa disputa entre um grupo destacado de colaboradores para ver quem mais responde as dúvidas em menor tempo. O reconhecimento pela qualidade da resposta e pela participação ativa na colaboração em rede parecem absorver aquilo que Pekka Himanen denominou de ética hacker e que tem sido elemento vital da comunidade de software livre. (http://www.rau-tu.unicamp.br/comunidade_rau-tu.html)

Já a comunidade Debian é um agrupamento de voluntários sem sede física, disperso pelo mundo com integrantes de dezenas de países, que busca distribuir uma versão do Linux estável e completamente dentro do espírito do copyleft. Pelas suas características filosóficas e sua forma de organização, a observação da comunidade Debian pode melhor permitir a compreensão dos motivos pelos quais o movimento do software livre, portador de uma ética hacker, centrada na colaboração interativa e no compartilhamento do conhecimento, tornou-se um importante movimento político, global e não-partidário.

A comunidade Debian, que conta aproximadamente com 1500 integrantes em seus diversos níveis, expressa o modelo de desenvolvimento compartilhado com um processo decisório complexo para assegurar a sua democracia interna. Seu cotidiano permite vislumbrar que uma rede sem centro físico, com seus servidores instalados em 18 países, capaz de produzir soluções tecnológicas complexas mantendo-se democrática e coerente com seus princípios fundadores.

Eduardo Maçan afirma que uma pessoa, para ingressar na comunidade Debian, necessita demonstrar que "sabe fazer e que faz". Outro elemento essencial é a necessidade de conhecer e ser capaz de defender o Contrato Social do Debian e concordar com a Constituição da comunidade. Para ser desenvolvedor Debian, o hacker deve concordar com o "Contrato" que é uma carta de princípios da comunidade e que a vincula com os ideais primeiros do software livre, nascidos do movimento GNU e da Free software Fondation.

O Contrato Social Debian, versão 1.0 ratificado em 5 de Julho de 1997, é uma peça voltada aos seus integrantes, mas é um compromisso diante das demais comunidades de software livre, como podemos observar:

"CONTRATO SOCIAL DEBIAN PERANTE A COMUNIDADE DE software LIVRE.

O Debian permanecerá 100% livre. Nós prometemos manter a distribuição Debian GNU/Linux constituída integralmente de software livre. Como há muitas definições de software livre, incluímos as definições que usamos para a identificação de software "livre" abaixo. Iremos apoiar nossos usuários que desenvolvem e executam software não livre sobre o Debian, mas nunca faremos o sistema depender de um item de software que não seja livre. Vamos retribuir à comunidade do software livre. Quando escrevermos novos componentes do Sistema Debian, nós o licenciaremos como software livre. Iremos fazer o melhor sistema que pudermos, de modo que software livre seja amplamente distribuído e usado. Iremos fornecer aos autores originais dos componentes usados por nosso sistema as correções de bugs, aperfeiçoamentos, pedidos de usuários, etc. Nós não esconderemos problemas. Iremos manter nosso banco de dados de relatório de falhas (nosso bugtraq) aberto para a visualização pública todo o tempo. Relatórios que os usuários ficarão imediatamente visíveis para todos os outros. Nossas prioridades são nossos usuários e o software livre. Nós seremos guiados pelas necessidades de nossos usuários e pela comunidade de software livre, colocando seus interesses em primeiro lugar em nossas prioridades. Apoiaremos as necessidades de nossos usuários para operação em muitos tipos diferentes de ambiente computacional. Não iremos fazer objeção a software proprietário que deva rodar em sistemas Debian, e permitiremos a outros criarem distribuições com valor agregado contendo tanto o Debian como software comercial, não sendo nenhuma taxa por nós cobrada. Para apoiar estes objetivos forneceremos um sistema operacional de alta qualidade, 100% livre, sem restrições legais que possam impedir estes tipos de uso. Programas que não atendem nossos padrões de software livre. Nós reconhecemos que alguns de nossos usuários precisam usar programas que não atendem a Definição Debian de software Livre. Criamos as áreas "contrib" e "non-free" dentro de nossos repositórios de FTP para este software. Os softwares contidos nestes diretórios não são parte do Debian embora estejam configurados para uso com o sistema Debian. Nós encorajamos fornecedores de CDs a ler as licenças de pacotes de software nestes diretórios e determinarem se podem ser distribuídos em seus CDs. Desta forma, embora software não livre não seja parte do Debian, nós apoiamos seus usuários e fornecemos infraestrutura (como nosso sistema de controle de bugs e listas de discussão) para usuários de software não-livre."6

O esforço principal da comunidade Debian não é econômico, pois seu contrato deixa isso muito claro. O objetivo é desenvolver software de modo colaborativo, cujo resultado seja de excelente qualidade, mas que não esconda suas falhas e problemas e que seja totalmente livre, ou seja, não-proprietário e com seu código fonte aberto. Usando o licenciamento GPL, o efeito virótico é assegurado, ou seja, todos aqueles que usam códigos do Debian não podem torná-lo fechado nem apropriarem-se do mesmo, tal como fariam com obras disponíveis em domínio público. A postura do desenvolvedor Debian é uma postura ideológica, cujo compromisso é a liberdade de conhecimento.

Já a Constituição Debian7 é o conjunto de normas que regem a governança da comunidade e definem como se dá o processo de decisão, as atribuições de cada grupo de trabalho, com seus direitos e deveres. Cada decisão na comunidade Debian é adotada seguindo a seguinte hierarquia decisória: - Votação dos desenvolvedores é a instância máxima; - Líder do projeto; - Comitê Técnico e ou seu líder; - desenvolvedor particular executando uma tarefa específica; - delegados apontados pelo Líder do projeto para realizar tarefas específicas; - Secretário do projeto.

O Líder do projeto é eleito anualmente pelos desenvolvedores. Somente ele pode falar pelo projeto Debian. O Líder também é quem indica o Comitê Técnico que é convocado para enfrentar problemas que não tiveram uma solução consensual entre um ou mais desenvolvedores. Cada hacker pode falar em seu nome próprio, mas não poderá falar em nome do projeto Debian sem ser destacado pelo Líder eleito. Os candidatos a Líder apresentam suas propostas e as debatem nas listas de discussão da comunidade. Sua eleição é realizada pela votação em rede, utilizando as chaves criptográficas de cada membro da comunidade, o que dá segurança ao processo, uma vez que a assinatura digital -- técnica baseada na criptografia assimétrica -- permite garantir a autoria e a integridade de quem a utilizou.

O método democrático da comunidade Debian é extremamente sofisticado e transparente. Suas votações são efetuadas por um sistema de gerenciamento de votações chamado DEbian VoTe? EnginE? [devotee]. O sistema permite saber o estado geral das votações no momento em que se acessa e o resultado das votações anteriores. O estado das Resoluções Gerais em trânsito podem ainda expor as propostas que estão em disputa, incluindo as seguintes fases: "Proposta - Aguardando por apoio. Discussão - Período para discussões de no mínimo duas semanas. Votação - O processo de votação está ocorrendo. Fechado - A votação acabou."8

A transparência e a auditabilidade plena são características relevantes do processo, uma vez que o resultado das votações é aberto, bem como a lista com o nome de quem votou e quais foram seus votos; inclusive, o texto de cada voto. Esta listagem só não é disponível quando a comunidade decide realizar determinadas votações de modo secreto para evitar quaisquer constrangimentos. A escolha do Líder do projeto Debian é feita pelo método Condorcet. Veja no Anexo III o texto integral da Constituição Debian.

A idéia presente na Constituição do projeto Debian é chegar a uma decisão o mais próxima possível do que é aceito por todos. O voto de cada membro do projeto possui uma gradação que hieraquiza suas preferências. Esta prática tem sido bem sucedida e tem gerado um processo decisório de escolha de lideranças cujo resultado efetivo foi a produção de 8710 programas de computador diferentes, até junho de 2005. A democracia participativa, baseada no debate efetuado nas listas de discussão, na ética meritocrática dos hackers e em seu espírito colaborativo e solidário têm gerado softwares livres que não podem ser apropriados privadamente. A ação concreta da comunidade do código livre fulmina o paradigma proprietário de produção e distribuição de software, que só pode ser mantido pela ação jurídico-repressiva do Estado.

A comunidade Debian é um dos "nós" conectados a esta grande rede que conforma uma esfera pública inicialmente hacker e que se espalha pelas demais áreas da produção simbólica da humanidade (Wikipedia, Creative Commons, etc). Este espírito ou Ética Debian foi observada a partir da análise etnográfica realizada pela Gabriela Coleman, da Universidade de Chicago, e por Benjamin Hill, desenvolvedor do projeto Debian. Eles descreveram o modelo Debian centrado na independência, trabalho voluntário e constituição de redes de confiança e perceberam a conformação desta esfera pública:

“Enquanto os hackers do software livre e de código aberto são mais facilmente associados a algum projeto, como por exemplo o Debian, eles também participam de uma 'hackersfera' que serve para substanciar a liberdade como conceito de relevância moral superior a questões técnicas. Esta esfera pública ocorre através de uma varidedade de canais on-line e off-line que provêem, com consistência, um espaço de argumentação e discussão racional acerca de uma gama de assuntos de natureza política e jurídica. Este espaço abriga com frequência discussões levantadas por novos artigos, casos judiciais, editoriais e comentários produzidos na comunidade. A origem dessa nascente esfera pública pode ser rastreada ao início dos anos 80 (nos sistemas de boletins eletrônicos – BBS), ao cenário das conferências de hackers, grupos da Usenet, e listas eletrônicas de discussão” (...) “Nesses forums, discussões sobre censura, política, tecnologia, propriedade intelectual e mídia contribuiram para marcar certas tendências como importantes para os hackers, e para trazer certas preocupações sociais ao mundo deles."9 (COLEMAN, HILL, 2005: 276)

As várias comunidades de software livre conformam uma rede de solidariedade tecnológica e ideológica de crença na liberdade e no compartilhamento do conhecimento que se torna crescentemente política quanto mais avança o uso pela sociedade e pelo mercado das soluções compartilhadas. Isso ocorre porque, para continuar existindo, o movimento precisa manter um grau de liberdade de criação incompatível com o endurecimento das leis de propriedade intelectual e a ação estatal contrária à expansão das comunidades de código aberto.

Como bem disse Stallman, "software livre é uma questão de liberdade e não de preço". Os ideais do movimento de software livre não são simplesmente técnicos ou econômicos, são político-culturais. Pregam a solidariedade e baseiam-se em uma ética em que compartilhar é o modo pelo qual se obtém o reconhecimento comunitário. A comunidade Debian é um exemplo de uma teia dentro da gigantesca rede do ciberespaço, de uma nova esfera pública: a esfera pública inicialmente hacker, cuja ética meritocrática exige o trabalho voluntário, a colaboração ativa e o compartilhamento do conhecimento, mas também exige uma postura crítica e vigilante contra o bloqueio e aprisionamento do conhecimento. Ao mesmo tempo, é o movimento destas milhares de comunidades de software livre, também um movimento pela transparência dos códigos, protocolos e padrões utilizados na sociedade em rede, que podem assegurar que o ciberespaço possa ser também uma esfera pública onde as pessoas privadas, sem constrangimentos, possam exercer o uso de sua razão comunicativa.

Topic revision: r1 - 08 Nov 2005 - 00:22:26 - CarlinhosCecconi
 
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