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"Cuidado com as sementes" - Poesia de Ademar Bogo

Vicente Aguiar - 16/06/2005

Tudo o que existe no mundo

Desde o animal até a gente

Não poderia ter nascido

Se não fosse uma semente.

Ela é que origina tudo

Faz a vida continuar

Por isso é que é preciso

Da boa semente cuidar.


Desde os tempos mais antigos

Que se conhece a cultura

A semente que alimenta

Inventou a agricultura.

Assim o povo viveu

Fazendo o plantio na terra

E pra garantir a espécie

Muita gente até fez guerra.


A semente e o fogo

Eram duas preciosidades

Quem controlasse as duas coisas

Tinha superioridade.

Hoje as coisas não mudaram

Muito pra diferenciar

Quem controla estas duas coisas

Tem o poder de mandar.


Vejam se não é verdade

Com tanto conhecimento

Tem gente que está querendo

Mudar a semente por dentro.

O petróleo virou fogo

Incendiando o mundo inteiro

Se continuar assim

O mundo vira o braseiro.


Com tanta modernidade

Deram então de inventar

Veneno de todo tipo

Para nas roça jogar.

Matando tudo o que é inseto

Sem ter preocupação

Como se o homem quisesse

Combater a criação.


Atacam de dia e de noite

Todas as espécies de vida

Até a água dos riachos

Está sendo poluída.

Não dá sequer pra beber

Chega até dar calafrios

Porque tem gente falando

Que vão prizatizar os rios!


Se a água for vendida

Pras empresas do exterior

Nós vamos morrer de sede

Pertinho do bebedor.

Até os animais do mato

Com sua experiência imensa

Para poder beber água

Vão ter que pedir licença.


Mas o pior disto tudo

Ocorrerá na semente

Dizem que vão botar nelas

Alguns pedaços da gente.

Já imaginaram se o homem

No milho a fala botar

E quando ele for pra roça

Ouvir a plantação xingar!


Isto já está acontecendo

Não é brincadeira não

Dizem que já tem arroz

Com gosto de camarão.

É tanta coisa absurda

Que tudo vai ser mudado

Daqui a pouco o feijão

Já é colhido temperado!


Estas invenções faladas

Que ferem crentes e ateus

É que as empresas malvadas

Deram pra brincar de Deus.

Vão misturar as espécies

Numa salada total

Daqui a pouco não se sabe

Se é animal ou vegetal!


E se fizerem ás pessoas

Com pedaços de animais

Já imaginaram que encrenca

Vão enfrentar os casais?

De noite no quarto escuro

Se a mulher ouvir um latido

E olhar debaixo da cama

O cachorro de seu marido.


Vai ter coração de boi

Batendo em peito de gente

Veias de bodes nas pernas

Pra ficar mais resistente.

Agora, o que preocupa

Se neste ritual louco

Junto com o órgão for

Também o espírito do porco.


Se começar a nascer chifres

Vai ser um gesto polêmico

Ninguém sabe se é traição

Ou se é um produto transgênico!

De qualquer forma é um perigo

Essas mudanças atoa

Porque não usam a ciência

Para fazer coisas boas?


Isto tudo é muito sério

Pra não dizer comovente

Porque vão botar veneno

No miolo da semente.

Ela germina drogada

Que é pra ser mais resistente

Crescerá contaminada

Esta planta diferente.


E quando chegar a colheita

Será a vez de ir pro mercado

Vender a droga produzida

Pra alguém especializado.

Pois mudará a cultura

Não terá mais comerciante

Porque quem droga circula

Só pode ser traficante!


E o lugar de comprar drogas

Não será tão diferente

Vão continuar expostas

Nas bancas do Shopping Center.

Isto é o que irá acontecer

Neste país brasileiro

Simplesmente por deixar

Entrar o invasor estrangeiro.


As empresas vão tomar

Do povo o conhecimento

Vão querer ganhar dinheiro

Sem nenhum constrangimento.

Só irão querer produzir

Com hábito interesseiro

Aquilo que lhes servir

Pra poder ganhar dinheiro.


Mas quem manteve até aqui

As sementes preservadas

Foram os que produziram

Sem venenos e com enxadas.

Por isso é que se deve

Reforçar esta amizade

E declarar a sementes

Direito da humanidade.


É uma luta muita grande

Que tem que levar a sério

Para que a agricultura

Não vire num cemitério.

Onde a vida vai embora

E só fica no lugar

Um lajedo seco e duro

Que nada dá pra plantar.


Portanto agricultores

Preservemos esta fatia

Porque quem perde a semente

Perde a soberania.

Se da semente vem tudo

Devemos ficar contentes

Porque seremos o escudo

Para os nossos descendentes.


Alertar os governantes

E todos os trabalhadores

E dizer que carecemos

De sementes de valores.

Se nossos antepassados

Nos legaram esta riqueza

Não deixemos as empresas

Emporcalharem a natureza.

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Autor Vicente Aguiar
Título "Cuidado com as sementes" - Poesia de Ademar Bogo
Data 16/06/2005
Fonte http://www.mst.org.br/setores/concrab/poemabogo.htm
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