Microsoft Rural
Se você tem um computador em casa ou no trabalho, há mais de 90% de chance de que ele funcione com o sistema Windows. A não ser que tenha conseguido se virar com algum software livre, você vive na pele o caso mais conhecido de monopólio da atualidade. Está pronto, então, para entender o que são os transgênicos. Basta imaginar um futuro próximo em que as verduras, frutas e cereais serão tão controlados quanto um Word ou um Outlook Express. Assim como você tem de pagar por cada instalação do programa em seu computador, cada nova semente plantada representará um custo para o agricultor.
A exemplo das sementes, a programação de computadores já foi de domínio público. Mas, depois de mais de trinta anos de pesquisa nas universidades para desenvolver computadores e a internet, boa parte desse conhecimento acabou patenteada pela Microsoft.
Bill Gates fez um acordo com o maior fabricante de equipamentos de informática, a IBM. Todo aparelho vendido levava o sistema operacional Windows. O programa se disseminou e tornou-se padrão. Depois, Gates desenvolveu uma série de programas que só funcionam se o usuário tiver o sistema da Microsoft.
"O transgênico é um instrumento para fazer o mesmo na área agrícola: garantir às empresas o controle de todas as sementes", avalia o britânico Michael Bailey, da Oxfam - uma coalizão mundial de 20 ONGs pelo desenvolvimento sustentável.
Bailey fez o comentário, durante a conferência "Propriedade Intelectual" do Fórum Social Mundial, referindo-se principalmente às experiências da companhia estadunidense Monsanto com a semente Terminator, que gera plantas estéreis.
Estancar a reprodução da vida
"As empresas vão dizer quem come, o que se come e a que preço se come", resume Mariana Paoli, coordenadora de Engenharia Genética do Greenpeace e da campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos. Mariana diz que antes mesmo de o gene Terminator se popularizar, o agricultor vai ficar impedido de reproduzir sua plantação. "Se você reproduz uma semente transgênica, a qualidade é tão baixa que inviabiliza a produção. Mesmo sem o Terminator", explica.
Ao estancar a reprodução espontânea da vida, a empresa obriga o agricultor a comprar grãos a cada nova safra. "Esse é o verdadeiro objetivo dos que criam transgênicos: o aumento de produtividade é apenas uma desculpa", acusa Elenar José Ferreira, da Concrab (Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil).
Elenar fala apontando números. Em quase 75% dos casos de alteração genética, as sementes foram modificadas para tornar o vegetal resistente a um a um herbicida ou inseticida. Quando se sabe que a produtora do transgênico é sempre a mesma do agrotóxico, fica fácil entender que o verdadeiro objetivo desse tipo de pesquisa científica: tornar o produtor agrícola dependente da multinacional, e multiplicar o lucro desta. Além de escravizar o agricultor, a transgenia aumenta a poluição no campo, por estimular a disseminação de agrotóxicos.
Transgênico é inviável economicamente
O latifundiário que cultiva a soja Roundup Ready contalibiliza a redução de seus custos. Com o planta vendida pela companhia estadunidense Monsanto, ele pode despejar livremente, inclusive por avião, o herbicida Roundup, da mesma Monsanto. A página oficial da empresa garante a satisfação econômica de quem utiliza seus produtos.
Mas as conta do cliente da Monsanto, muito provavelmente, não entram muitos custos de sua produção. A contabilização fica distorcida, ao não incluir despesas que acabam sendo pagas, não pelo agricultor ou pela patenteadora da semente, mas por toda a sociedade.
"Quando alguém dispersa agrotóxicos pelo ambiente, isso vai parar nos rios e vai contaminar pessoas. Quem pagará esses custos da produção de transgênicos?", questiona Elenar José Ferreira, da Concrab. "Fazendo esse cálculo global, veremos que esses alimentos que exigem maior quantidade de herbicidas são inviáveis economicamente".
* colaborou Antonio Martins, editor do Porto Alegre 2003