Economia Solidária, Software Livre, Inclusão Digital e Desenvolvimento Sustentável.

Mais uma reunião das maiores potências do planeta se aproxima. O G8 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Rússia e Reino Unido) deverão se reunir nos dias 6 a 8 de junho em Heiligendamm na Alemanha. Esse grupo é criticado por muitos países sub-desenvolvidos e por uma grande número de movimentos sociais ao redor do planeta. As discordâncias em relação ao G8, parte da constatação e crítica, de que o grupo é o responsável por “decidir uma grande parte das políticas globais, social e ecologicamente destrutivas, sem qualquer legitimidade nem transparência” http://pt.wikipedia.org/wiki/G8. Mais uma vez, o movimento global que defende “uma outra globalização” possível , http://pt.wikipedia.org/wiki/Antiglobaliza%C3%A7%C3%A3o - que pensa, o global junto ao local de forma sustentável, prepara-se para mais uma articulação/ação de protestos autogestionários, organizados em rede. http://www.youtube.com/watch?v=EwHlbBbZNT4

Esses protestos contra a globalização capitalista e de mercado em curso, tendem a se ampliar de uma forma crítica e radical a cada novo dia. Essa globalização nevasta, simboliza-se no fato de que uma ínfima parcela da população, detém a maior parte da riqueza produzida por toda a humanidade. Se de um lado as grandes potências se organizam para aumentar sua capacidade de manter o mundo sob seu controle. De outro, existe a reação de parte das populações, que de diferentes maneiras, fazem seus protestos - “pressões por autonomia local”, alertando que estamos a caminho de uma situação internacional política, social e econômica insustentável para a vida humana. A seguir nessa cultura de saque e violência ao planeta, as outras espécies e a grandes parcelas mais vulneráveis da sociedade humana – inevitavelmente, o planeta e a nossa espécie, tende a sucumbir num curto espaço de tempo.

Do ponto de vista ambiental por exemplo, a cada dia que passa, mais e mais presenciamos desequilíbrios globais assustadores, e nos perguntamos, de quem é a responsabilidade pelo aquecimento global e o efeito estufa? http://www.youtube.com/watch?v=JD6rbme7Ihk . “O aquecimento global é um fenômeno climático de larga extensão ― um aumento da temperatura média da superfície da Terra que vem acontecendo nos últimos 150 anos http://pt.wikipedia.org/wiki/Aquecimento_global .

Sabemos quem são os responsáveis pelas terríveis desigualdades sociais e pelos danos irreversíveis ao ambiente. Sabemos que a sede de poder e a ganância do G8 gera cada vez mais miséria, desequilíbrio ambiental, injustiças, violência, guerras, etc., negando direitos fundamentais a milhões de seres humanos.

Do ponto de vista ambiental de acordo com dados da própria Organização das Nações Unidas (ONU), de 1990 a 2002, metade dos países do G8 aumentaram suas emissões de gases de efeito estufa. O Canadá aumentou em 20%, os Estados Unidos aumentou em 13%, Japão em 12% e a Itália em 8%. Os países participantes do grupo representam somente 13% da população mundial, no entanto são responsáveis por 45% das emissões globais de gases de efeito estufa. (Fonte:Sindijus-PR )

As desigualdades sociais se multiplicam cada vez mais. Em minha participação no Fórum Social na África tive a oportunidade de presenciar a dura realidade do povo africano. Se a realidade brasileira nos causa indignação devido a miséria, as injustiças e a violência convivendo com a concentração de riquezas e a indiferença de parte da sociedade, no Quênia tive a triste experiência de ver seres humanos tentando sobreviver às condições mais brutais que já vivenciei.

Caminhando pela Favela Korogocho presenciei as pessoas lutando de maneira sub-humana pela manutenção da vida. No Quênia, pude presenciar a dura realidade de que não tem água tratada, de quem não tem tratamento de esgoto e nem energia elétrica - inclusive está sendo colocado agora um poste de energia bem no meio da favela. Apenas um. Os índices de Aids são assustadores. Os índices de estrupro de mulheres de todas as idades (crianças, jovens e senhoras) são de arrepiar. A ausência absoluta de direitos básicos como: moradia, alimentação, saúde, educação, trabalho, cultura fazem parte do cotidiano daquelas mulheres, homens, crianças, jovens e idosos.

Durante minha caminhada na favela, vi as pessoas vendendo alimentos em frente aos barracos. Vi as pessoas transportando alimentos em saquinhos plásticos, depois comendo direto nesses mesmos saquinhos, sendo esses, logo após usados para guardar seus próprios excrementos, que serão jogados em qualquer lugar da rua.

O cheiro de fezes humanas é algo muito presente naquela favela. E eu já havia sido avisado dessas condições e portanto, optei por ir sem me alimentar pela manhã. Acho que o motivo dá para imaginar... Sabemos quem são os responsáveis por essas mazelas da sociedade atual. Sabemos quem concentra em seus cofres a riqueza e o conhecimento. Sabemos que isso necessariamente precisa mudar. E sabemos ainda, que estamos nos dirigindo para nos chocar em algo grande e se continuarmos nessa direção não teremos como desviar.

O que fazer diante de tanta injustiça? Como lutar contra essa perversa realidade? Eram perguntas que não se calavam em minha mente...Senti naquelas pessoas a existência de sonhos, de esperança e a força em favor da vida, da luta pela mudança dessa realidade.

O que aquelas e aqueles que querem, desejam e lutam por uma outra sociedade, um outro mundo, uma nova cultura de diversidade, solidariedade e sustentabilidade - uma nova estrutura de relações de trabalho, com novas relações econômicas e novas formas de gestão irão fazer? Eu quero aqui iniciar um diálogo sobre uma proposta que vem sido debatida num movimento chamado Economia Popular e Solidária.

Em vários espaços de debates e reflexões como no Fórum Internacional de Software Livre por exemplo, alguns agentes do movimento de Economia Popular e Solidária e do Software Livre dedicaram tempo a pensar como podemos construir um projeto para a Economia Popular e Solidária, o Software Livre e a Inclusão Digital, com alcance pró-desenvolvimento sustentável.

A inclusão digital é uma oportunidade de articular capacitação continuada e inserção crítica de cidadãos na sociedade da informação. Projetando a Inclusão Digital, aliada com a integração da Economia Solidária e do Software Livre, exemplificada por exemplo, no comércio eletrônico justo e solidário e nas cooperativas de jovens para produção e desenvolvimento de soluções de TI e produção visual, conseguiremos contribuir, de maneira propositiva e qualificada, para a democratização das comunicações e produção de conteúdos para a TV Pública.

Trabalhar junto às ações de inclusão digital, como base para o desenvolvimento de um "Sistema Nacional de Comércio Justo e Solidário" no meio digital, para os produtos da Economia Solidária, bem como, a formação de cooperativas tecnológicas livres, a exemplo: da Solis, Sintectus, Colivre, Coperjovem, TecnoLivre? e Pirambu Digital, serão formas concretas de promover a economia solidária, o software livre, reencantando uma enorme parcela da juventude (o setor que apresenta os maiores índices de desemprego no Brasil) brasileira recém incluída digitalmente, na articulação e formação, de uma rede colaborativa capaz de oferecer suporte tecnológico a usuários de programas como o Computador para Todos. Além disso, é preciso trabalhar na nossa capacitação e educação para o consumo consciente e solidário.

“O consumismo é, certamente, um dos problemas centrais da juventude atual. A publicidade aposta nos jovens para vender seus produtos. Muitos já não encontram sentido na vida por não poderem consumir, enquanto outros descobrem um "sentido" consumindo compulsivamente. Parece que não existe saída. De fato, consumir para o bem-viver e para a solidariedade é andar na contramão desta “roda viva”. São propostas que estão surgindo e ganhando força nas redes de economia solidária".( Viver para consumir ou Consumir para Viver em http://www.milenio.com.br/mance/.

A origem dos produtos deve ser questionada. Se tem grande impacto ambiental. Se tem exploração de mão-de-obra infantil. Se quem produz um determinado produto explora os trabalhares e as trabalhadoras. E tendo tudo isso, então, nós devemos ter a consciência de não comprar esses produtos.

São inúmeros os movimentos sociais e instituições que lutam pela transformação das condições de opressão. Cada movimento social e/ou instituição possui sua identidade, bandeiras de luta centrais, são lutas específicas contra: a exploração do trabalho, o machismo, a homofobia, a xenofobia, o racismo, o latifúndio, a destruição dos ecossistemas, o monopólio do conhecimento, etc., estas lutas específicas possuem um eixo comum: a transformação social, a superação do capitalismo.

Uma questão fundamental ao longo da história das lutas dos trabalhadores, dos diversos movimentos sociais, tem sido a necessidade da união de todos e de todas em ações estratégicas tendo em vista seu fortalecimento e a intervenção concreta na realidade gerando transformações.

No atual estágio do capitalismo – globalizado - a necessidade da união dos diversos movimentos, instituições e pessoas em eixos de lutas comum é questão de inteligência e força, nos desafiando a lutar juntos, vivenciando a diversidade de ações, de concepções e de práticas. (ver: Eixos de Luta e a Central de Movimentos Populares em www.milenio.com.br/mance).

Nesta perspectiva, na busca de respostas a pergunta: o que fazer?, é interessante a estratégia de organização em redes de colaboração solidária, conectando horizontalmente ações econômicas, políticas, educativas e culturias podendo significar a “diferença” na superação do capitalismo (Mance, Euclides A. A Revolução das Redes, Editora Vozes, 2000.)

O que essa reflexão pode contribuir para o movimento Software Livre?

Tive a satisfação de organizar no Fisl 8.0 uma palestra com Paul Singer (SENAES/MTE) e Edgard Piccino (Casa Brasil) com o tema: Economia Solidária, o Software Livre e a Inclusão Digital podem convergir na construção de práticas, técnicas e tecnologias para um Mundo Sustentável http://www.softwarelivre.org/news/8860. Após essa palestra aconteceu animado pela ONG Ates (http://www.ates-ong.blogspot.com/) e outros agentes, o Evento Comunitário Economia Solidária, Software Livre, Inclusão Digital, Comunicação e Cultura na construção de Práticas, Técnicas e Tecnologias para um Mundo Sustentável”. Esse evento Comunitário também contou com a participação de Paul Singer e Edgard Piccino, Marcelo Branco (Secretaria de Telecomunicações e Sociedade da Informação do Governo da Catalunia da Espanha), Eudes Xavier (Deputado Federal do PT do Ceará) e Vicente Silva Diretor da Cooperativa Coolivre (http://www.colivre.coop.br/) da Bahia. Sendo a mesa coordenada por Luciano Lima – Diretor da ATES.

Já em 2005 durante o fisl6.0 Paul Singer falava que software livre é um exemplo de Economia Solidária (http://www.softwarelivre.org/news/4080), e no fisl7.0 e fisl8.0 já trabalhamos com a perspectivas de ações concretas para essa integração dos temas.

Frente algumas críticas ao Fórum Internacional de Software Livre, de que o evento está elitizado, de que as grandes corporações estão dominando o fisl, de que a comunidade software livre está sendo deixada de lado, quero aqui destacar:

A crítica ainda aponta que as grandes corporações e governos estão ganhando mais espaço no Fisl.

As grandes empresas estão vendo uma forma de ganhar dinheiro com o software livre. E isso não é necessariamente ruim. O problema está em qual a quantidade e quanto vão acumular. Se isso terá uma divisão justa ou não. (poderia repensar algumas coisas aqui, poderia uma grande coorporação ter uma divisão justa? como medir essas quantidades? Como reinvestir os “lucros” de forma solidária gerando novos postos de trabalho e se contrapondo a lógica capitalista?)

As empresas querem mesmo no Fisl buscar o melhores desenvolvedores e estão usando também a comunidade de software livre para baratear suas soluções e gerar mais e mais lucros a favor do capital. E eles estão no seu direito? Talvez sim. Talvez não. Mas nós não podemos reclamar e pouco fazer com relação a isso. Temos sim, de sermos mais propositivos.

A saída é Economia Popular e Solidária, em algumas regiões do Brasil conhecida como Economia Solidária ou Socioeconomia Solidária. Chega de trabalho alienado não criativo! Chega de sermos comprados por salários que não nos permite ter uma qualidade de vida necessária.

Vamos discutir a economia. A gestão das nossas empresas. Nós temos e podemos que fazer isso de forma colaborativa. Onde todos devemos saber o que acontece em nossas instituições, entidades, empresas e governos. Precisamos alterar as relações de poder. Para despertar na sociedade o seu papel fundamental e construir a idéia de que todas e todos nós devemos, precisamos e podemos ser sujeitos de nossa própria história.

Devemos construir e espraiar através de nossos instrumentos coletivos e colaborativos um sonho que pode ser transformado em realidade - não devemos mais permitir que milhões de pessoas vivam em meio a miséria. Que milhares de pessoas se aglomerem nas favelas, sem água, sem luz, e sem tratamento de esgoto somente para que alguns possam viver em meio ao luxo absoluto.

A economia solidária pode fortalecer-se muito com a tecnologia de comunicação e informação. Com o comércio eletrônico e com a certificação digital. Temos potentes mecanismos de construção do conhecimento colaborativamente. E é disso que os empreendimentos solidários devem se apropriar. Devemos trabalhar para buscar a igualdade entre homens e mulheres. Onde possamos gozar dos avanços das tecnologias inventadas através do acumulo do conhecimento ao longo da existência da humanidade. Onde possamos ter tempo para o lazer e a cultura e não haja mais escravos assalariados de patrões mesquinhos. Devemos também nos apropriar dos meios de produção. Onde os produtores poderão se relacionar livremente ou através de simples troca ou por moedas sociais. Devemos fortalecer comunidades para se associarem com liberdade.

Para terminar quero mencionar o vídeo da Fabiane Borges da g2g (http://g2g.sarava.org/) onde ela fala no fisl sobre software livre. Acho que as dúvidas dela são importantes. E devemos buscar respostas. Eu arrisquei nesse artigo uma resposta, mesmo que incompleta. Vejam o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=lIxxDf1u_-o

Topic revision: r1 - 01 Jun 2007 - 03:44:26 - EvertonRodrigues
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