Software Livre, Economia Solidária e Desenvolvimento
Escrito por: Lúcio Uberdam e Everton Rodrigues
Precisamos caminhar para uma sociedade onde o trabalho seja instrumento de emancipação, onde o conhecimento seja instrumento de desalienação e onde os homens vivam através do trabalho que realizam de forma solidária e cooperativa e não mais para serem explorados, ofendidos, humilhados, oprimidos.
(Emir Sader)
O trabalho e as sociedade capitalista
Pelas teorias Marxistas, o trabalho é condição de existência da condição humana e das sociedades humanas. Independente das sociedade em questão, é pelo trabalho que interfere-se no meio em que se vive, e interage-se de forma emancipada enquanto espécie consigo mesmo e as demais. Pelo trabalho, cria-se e satisfaz-se as necessidades, sejam estas materiais ou simbólicas, e ao cria-las e satisfazê-las transforma-se o mundo em que se vive, nós mesmos e a visão sobre o “outro(a)”. Ao transformar o mundo em que vivem, mulheres e homens transformam a si mesmos em novos(as) homens e mulheres.
O trabalho, produto humano, é então ao mesmo tempo o produtor da condição humana, das relações e das sociedades humanas. Mas perguntamos: - Em que homens e mulheres estamos nos transformando quando o trabalho é desumanizado em prol da face atual do capital, o capitalismo?
Na sociedade capitalista contemporânea, prossegue atual a histórica tensão capital x trabalho da sociedade capitalista, nesta, o trabalho ação potencializadora da condição humana prossegue aceleradamente diminuindo enquanto quantidade e qualidade humanizadora. O número de trabalhadores no cenário da fábrica diminuiu, a globalização espalhou os trabalhadores por um sem número de lugares, ao lado do trabalhador(a) formal, não temos mais outro trabalhador(a), mas sim uma máquina (trabalho morto), nosso enxuto trabalhador(a) formal, esta cada dia mais especializado e sem companheiros de trabalho, sua vida social é desqualificada, pois primeiramente não consegue mais financeiramente mantê-la, e igualmente pelo fato desta estar potencializada na condição primeira: - O trabalho na sociedade capitalista aprofunda cada vez mais sua condição alienante, angustiante e exploradora, sendo assim, a sociabilidade constituída tende a repetir a mesma condição. Trabalho alienado, sociabilidades alienantes.
A exploração da mais-valia do trabalhador (que vende sua força física e conhecimento) como elemento de acumulação de capital pelo capitalista que detém o meio de produção (e acúmulo científico) prossegue. Com o crescente da tecnologia, o trabalhador(a) informal cresce, parecendo encenar atualmente partes do Romance a “Mãe” do Russo Máximo Gorki: Trabalhadores(as) com longas jornadas de trabalho; Recursos financeiros impossíveis de darem conta do mínimo para reprodução das necessidades materiais; Nenhuma segurança financeira e de trabalho; Uma vida social e familiar (sociabilidade) em constante crise;
Milhões de trabalhadores(as) são excluídos dos seus empregos, ampliando cada vez mais o trabalho precário, sem garantias de direitos. No Brasil, hoje, mais de 50% dos trabalhadores(as) estão sobrevivendo sob outras formas de organização do trabalho que não a relação tradicional da carteira assinada, fato esse que qualifica as taxas de lucro dos capitalistas.
A Economia Solidária
Nesse cenário devastador, os trabalhadores(as) e suas históricas e geográficas lutas operam “alternativas inteligentes não-capitalistas”: A Economia Solidária e o Software Livre, são resultados e experiências do trabalho buscando sua autonomia e emancipação de forma inteligente. A Economia Solidária é um conjunto de atividades econômicas desenvolvidas coletivamente por trabalhadores e trabalhadoras em inúmeros ramos da produção, prestação de serviço, consumo, crédito e distribuição, com um modelo administrativo autogestionário, conceitos e práticas fundantes na emancipação, sustentabilidade e democracia radical a partir da solidariedade. Visa-se com a Economia Solidária, não apenas gerar renda e trabalho, mas um experiência local exemplar para um projeto de sociedade com qualidade de vida mais ampla e sustentável. A Economia Solidária, movimento que recebe diferentes nomes pelo mundo afora, faz parte das lutas dos(as) trabalhadores(as) contra a exploração do trabalho humano. A atual crise do trabalho assalariado revela que o capitalismo tende a acentuar a exploração e a reduzir as oportunidades de trabalho (inclusive alienado) – contribuindo, também, pela sua matriz esquizofrênica, por uma degradação ambiental, social e espiritual capaz exterminar nossa espécie.
O Software Livre
Entende-se que as novas tecnologias de informação e comunicação – TIC's, vêem de forma crescente cumprindo um papel estratégico na tensão capital versos trabalho. A contribuição das TIC's na contemporaneidade vem acarretando inúmeras alterações na citada tensão, ainda assim, para além das aparências verdadeiras e pontuais que instrumentalizam o discurso de um novo cenário de possibilidades econômicas a partir das novas tecnologias, podemos afirmar que a essência das alterações são estruturais e drásticas na contemporaneidade, e que simplificamos nos seguintes elementos: 1) Cenário propicio para ampliação das taxas de lucro com o aumento do trabalho morto e a produtividade hora trabalho do trabalhador(a); 2) Abrangência geográfica do capital com a globalização de produtos, símbolos e forma de produção “sem fronteiras” das grandes corporações; 3) Capacidade histórica única das empresas para a reconversão de produção, constituição de novos produtos e construção de novas matrizes de produção; 4) Aumento desenfreado do consumo; 5) A conflituosa financeirização; 6) Ampliação do desemprego e do trabalho informal; 7) Índices alarmantes no impacto ambiental, social e espiritual das espécies, degradando o ambiente na sua totalidade.
O software Livre é uma das primeiras experiências relevantes de inversão de apoio das TICs para o trabalho e a classe que vive do trabalho, ainda que possível de apropriação parcial desta pelo capitalismo, podemos dizer que o LINUX, um dos principais produtos do Software Livre, é “o primeiro produto moderno e competitivo criado de forma não-capitalista”¹, este permite acesso ao código-fonte, a livre distribuição, e o direito de alterar o programa, traz em sua prática novas relações na produção das tecnologias e conhecimentos – a colaboratividade livre sem propriedade privada. Ainda que possamos explicar muito do seu sucesso pela fato da sua imaterialidade enquanto produto, o Software Livre a grega hoje experiências possíveis de articulação com a Economia Solidária, sejam essas através do aporte tecnológico, sejam essas através da apropriação e disseminação do conhecimento livre.
O Desenvolvimento
Fomos capazes de precisar bem a incapacidade do modelo de desenvolvimento capitalista propor uma sociedade mais saudável a todos(as), ainda que não derrotando-o, conseguimos nós na luta histórica e geográfica dos trabalhadores(as), pensar a necessidade de um desenvolvimento econômico, cultural e social, articulado ao envolvimento pleno das pessoas de uma forma justa e solidária entre as mesmas, o ambiente e demais espécies. O Desenvolvimento Local e Sustentável, é a organização, compreensão e ação coletiva por uma e, em uma determinada “comunidade”, para o desenrolar, o desenvolver de potencialidades que resultem em crescimento econômico, social e cultural, articulado à preservação ambiental.
Conclusão
Precisa-se de um despertar da necessidade de superar solidariamente as mazelas sociais, requalificando os trabalhadores para o novo mundo do trabalho e apoiando-os, constituindo assim, um universo mais criativo e emancipador na vida concreta de todos e todas, gerando trabalho, renda, liberdade e um projeto de sociedade. Ampliando e gerando experiências de desenvolvimento “local”, empoderado tecnologicamente, onde o trabalho - humanizador da humanidade seja visto como um dádiva e não como um fardo. Precisamos pensar o desenvolvimento que queremos e podemos, pensar este e seu apoio mutuo com Software Livre e a Economia Solidária.
Resumo da atividade.
Além de relacionar a economia solidária como software livre para o desenvolvimento no sentido mais amplo da palavra. Outras relações de trabalho já praticadas pela economia solidária e pelo software livre, onde ambos diferenciam-se e complementam-se na prática e na teoria. Esses dois conceitos de práticas contribuem para desenvolvimento envolvendo as pessoas e foram iniciados e ampliados pelo envolvimento de milhares de pessoas.
Diante disso, é necessário pensar como o estado através de políticas públicas pode agir para fortalecer a integração dessas duas iniciativas.