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EvertonRodrigues - 22 Aug 2007
Compartilhar o poder para mudar o mundo: Cultura Hacker + Cultura da Economia Popular e Solidária
Estimulado pelo debate da economia solidária e software livre ao qual participo a algum termpo resolvi escrever esse texto.
Em troca de algumas idéias com algumas pessoas levantou-se uma polêmica: entre o uso da FDL ou a versão não comercial da CC para obras financiadas com dinheiro público.
De um lado as licenças GPL (Licença Pública Geral - (
http://pt.wikipedia.org/wiki/GNU_General_Public_License) que garante as liberdades do software livre e a FDL (Licença GNU de Documentação Livre - (
http://pt.wikipedia.org/wiki/GNU_Free_Documentation_License) que é “A Licença de Documentação Livre do GNU é uma forma de copyleft criada para uso em manuais, livros texto ou outros documentos para garantir que qualquer um tem a real liberdade de copiar e redistribui-los, com ou sem modificações, tanto comercial quanto não-comercialmente.” (
http://www.gnu.org/licenses/licenses.pt.html#FDL),
De outro a Creative Commons versão 2.5 Atribuição-Uso Não-Comercial-Compatilhamento pela mesma licença 2.5 Brasil. (
http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.5/br/)
Basicamente a preocupação dos defensores dessa versão da CC é de que o produto já foi pago, e que cabe ao estado garantir que não seja pago mais uma vez por esse produto licenciado com o objetivo de obter o lucro.
Nesse debate, o direito ao comércio de produtos financiados com o dinheiro público é a polêmica.
E no debate esteve presente a nossa relação com as leis. O que o estado deve ou não gerenciar. Se é justo que nesse caso as leis determinarem o que nós devemos ou não fazer. O estado que não nos pergunta quase nunca o que pensamos. Que inventa e aplica as leis segundo as idéias de alguns, que estão no poder por nossa vontade é verdade, mas que muitas vezes não consultam o pensamento da maioria para tomar suas decisões. Esse estado que está a serviço dos interesses dos detentores dos meios de produção.
Mas existe hoje algo, que não é gerido pelo estado ou por empresas capitalistas. Esse algo é um movimento social que tem um contrato social pensado com autogestão, um movimento que tem ética hacker (
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ética_hacker), uma comunidade que tem outra comunidade dentro como por exemplo, a comunidade debian que tem um contrato social (
http://www.br.debian.org/social_contract), um movimento que construiu o espírito livre da internet, e que suas normas são pensadas para auto-aplicação. Este é o movimento software livre.
Esse movimento ou cultura hacker foi articulado por milhares de hackers ao redor do planeta, que colaboraram entre si, que trocaram idéias, que pensaram em sistemas de decisão coletivas, que mandaram e receberam códigos abertos que poderiam ser comercializados e privatizados assim como a microsoft fez.
E mesmo com essa possibilidade de comercializar em benefício próprio, que podiam apenas copiar programas de computador e vender para se dar bem e pronto. Mesmo com essa possibilidade essas pessoas membros de comunidades hackers não fizeram.
Porque?
Manuel Castells, no seu livro Internet Galáxia diz o seguinte:
* Pag. 34 ao escrever sobre a cultura da internet, diz que no atual estágio da internet é bom distinguir entre produtores/usuários e consumidores/usuários. Ele afirma que a cultura da internet é a cultura dos criadores da internet. E essa cultura da internet é caracterizada por 4 camadas: Primeira Camada: A cultura tecnocrática que são os geeks ou nerds, que a descoberta tecnológica é o valor supremo; Que para ser respeitado como membro da comunidade e como autoridade deve agir de acordo com as normas formais e informais da comunidade e não usar recursos para seu beneficio exclusivo;
* A segunda camada: Na pag 42 Castells fala da cultura Hacker: "Mas um melhor desempenho, quando desvinculado de instituições compensatórias, requer a adesão a um conjunto de valores que combina a alegria da criatividade com a reputação entre os pares (outros membros da comunidade)"
* Suprema nesse conjunto de valores é a liberdade. Liberdade para criar, liberdade para apropriar todo o conhecimento disponível e liberdade para redistribuir esse conhecimento sob qualquer forma ou por qualquer canal escolhido pelo hacker.
* Com isso Castells demonstra que a criação não é motivada apenas pela busca do lucro, mas pode ser pela satisfação imediata que o hacker tem ao exibir sua genialidade para todos. Ou prestígio ou reputação frente a sua comunidade autodefinida que não depende de instituição empresarial ou governamental.
* Na página 43, ele escreve: Há na cultura hacker um sentimento comunitário, baseado na integração ativa a uma comunidade, que se estrutura em torno de costumes e princípios de organização social informal."
* "Naturalmente, dinheiro, direitos formais de propriedade ou poder institucional são excluídos como fontes de autoridade de reputação"
* Terceira camada: Comunidades virtuais: Segundo Castells (pag 46) As fontes culturais da internet não podem ser reduzidas, porém, aos valores dos inovadores tecnológicos.
* No início as comunidades virtuais eram compostas em sua maioria pelos criadores da internet, mas na década de 80, a maioria dos integrantes não eram peritos em programação. Em 90 com a explosão da internet milhões de usuários levaram para a rede suas inovações sociais com a ajuda de um conhecimento técnico limitado... inclusive na forma de muitas de suas manifestações comerciais, foi decisiva.
* Institute for Global Communication (IGC) articulou algumas das primeiras redes de computadores dedicadas a promoção de causas socialmente relevantes como a defesa do meio ambiente e preservação da paz mundial. IGC também contribuiu para a implementação da rede feminina (La neta) usada pelos zapatistas mexicanos para obter solidariedade internacional... Castells pag 47
MAs é evidente que nem todas as comunidades virtuais são para o bem coletivo, existem também comunidades virtuais racistas e sexistas por exemplo.
E a quarta camada: Os empresários (lucro) * pag 49. A difusão da internet a partir de círculos fechados de tecnólogos e pessoas organizadas em comunidades para a sociedade em geral foi levada a cabo por empresários. pag 52. os empresário da internet são antes criadores que homens de negócios, mais próximos da cultura do artista do que da cultura corporativa tradicional.
Com isso, Manoel Castells relata que a cultura da internet advem da dessas 4 camadas trascritas acima.
Mas, quero me dedicar a propor que adotemos a cultura hacker em todas as nossas áreas da sociedade. Porque não podemos levar esse conceito para além dos códigos ou de programar/comunicar através dos computadores?
Será que essa cultura não é uma grande contribuição que devemos estudar e levar em consideração para construir uma sociedade justa e solidária.
Vejo que não precisamos limitar pelo não direito ao comércio.
Devemos deixar nossas obras livres, inclusive para que as pessoas escolham a forma pela qual vai propragar aquele produto, desde que não mantenha o conhecimento aprisionado sob seus interesses individuais, e indique onde podemos achar com facilidade o original ou a versão.
E para substituir a camada da cultura empresarial podemos construir a Cultura da Economia Popular e Solidária, onde o lucro não é o objetivo. Mas sim o desenvolvimento de uma sociedade coletiva autogestionada com valores sócio-cultural-político autosustentável.
Porque o mundo não se muda com leis pensadas por senadores em sua maioria representantes de uma elite burguesa, ou por advogados especialistas em regras que nós não conhecemos.
Mudamos o mundo com a prática de uma nova cultura bem diferente dessa nossa atual é claro, que devemos forjar em nosso dia-a-dia.
Acho que precisamos do estado para muitas coisas, mas não para praticar uma nova cultura que formará um novo sistema. O sistema nos forma e nós formamos o sistema. O que vem antes ou depois, é outro debate. O fato é: A cultura hacker é uma prova de auto-gestão cultural livre das corporações, e para fortalecer essa idéia juntar a cultura da economia popular e solidária talvez seja algo a ser feito.
O poder é nossa conscientização de praticar algo para o bem coletivo. O bem coletivo deve ser um entendimento coletivo, e o pensamento diferente da minoria do coletivo deve ser respeitado e considerado/estudado como uma possibilidade, e não apenas como minoria.
Já existe, um grupo do qual também faço parte que chama-se "Rede
EcoSoLivre?!":
http://EcoSol.SoftwareLivre.org
Porque não?
Everton Rodrigues - Comunidade software livre
* Manuel Castells - Galáxia Internet