Deu na Revista TEMA: Mesa Redonda sobre Software Livre no Brasil Editoria: Geral 13/Jan/2004 - 20:18

A idéia foi de Sérgio Rosa, diretor do Serpro. "Que tal formamos uma mesa redonda para discutirmos software livre?" Antes de ouvir a resposta, o diretor pontuou: "algo no estilo do velho Pasquim". A idéia conquistou todos desde o primeiro momento. Na pauta, o tema era liberdade, tantas vezes presente no histórico semanário alternativo. Conspiração do destino. Sabia-se que o assunto software livre era polêmico, a anos-luz do consenso. Surpresa foi a empolgação dos entrevistados: presentes, o próprio Sérgio Rosa, o presidente do ITI, Sérgio Amadeu, e o vice-presidente da Softex, Alexandre Beltrão Moura; de Porto Alegre, por telefone, Mário Teza, gerente da Dataprev. Quase sem respirar, não davam espaços para as perguntas ? as minhas e das companheiras indagadoras: Ana Lúcia Carvalho, Jane Araújo e Sandra Sipp. O embate foi vigoroso. Ao final, contrariando o dito popular, nem mortos, nem feridos. Apenas um dos mais completos registros sobre as discussões que envolvem a adoção da plataforma livre no país. E a leve sensação de que, às vezes, se os repórteres somente apertarem o botão play do gravador, terão prestado um grande serviço ao leitor. (Antônio Carlos Burity)

Quando se fala em software livre, qual a primeira coisa que lhes vem à cabeça?

Mário Teza ? Software livre é liberdade. É a possibilidade que a empresa, estatal ou privada, universidades, escolas, organizações ou qualquer indivíduo têm de uso da plataforma livre. No início, temos uma certa dificuldade: aparentemente há facilidade no uso do software convencional, e dificuldades no livre. Depois, nos habituamos e percebemos as vantagens desta opção. Para mim as vantagens são superiores às econômico-financeiras que possamos ter, pelo fato de não pagarmos licença de uso. O maior benefício é a liberdade.

Sérgio Rosa ? Tenho aqui na sala um quadro onde está escrita frase de Jean Paul Sartre: "Nada nas mãos, nada nos bolsos". Lembra-me o movimento da Tropicália, que também foi um movimento libertário, tal como foi a Semana de Arte Moderna. Gostaria de associar o software livre a essa cultura de transformação. A cultura tecnológica não mudará por causa de uma novidade, mas por meio de oportunidades. Para isso, o governo federal conta com a parceria de empresários como Alexandre Moura, que veio da Paraíba para este debate.

Sérgio Amadeu ? O software livre é uma possibilidade de desenvolvimento e importante mensagem sobre linguagens básicas da sociedade em rede. Vivemos numa sociedade informatizada cujas ações, cada vez mais, são mediadas por computador. Comunicação é a palavra-chave dessa nova sociedade que estamos construindo. E se comunicação não se faz sem linguagem, no caso do computador, o software é que permite que ela ocorra com outra máquina ou com o usuário. Por isso, os softwares básicos não devem ser propriedade de um monopólio mundial, extraindo riquezas de países que têm de caminhar para uma sociedade do conhecimento, estruturada em rede. O software livre é a oportunidade de refletirmos sobre esta questão chave: quanto mais compartilhamos o conhecimento, mais ele cresce. O que está acontecendo agora é que algumas empresas estão tentando conter essa verdade. Querem impedir a tendência por meio de campanhas de transformação de softwares em patentes.

Alexandre Moura ? A primeira coisa é a questão da liberdade. Porém, sou comedido ao tomá-la de forma ampla. Visto a camisa do empresariado brasileiro e entendo que precisamos gerar riquezas para o país, inclusive com atração de divisas do exterior. Para cumprirmos nossas metas de exportação, precisamos ter produtos para serem vendidos lá fora. Isso não quer dizer que o governo brasileiro ou a população tenham que pagar a conta de rico. Se temos condições de comer bem num botequim, não precisamos ir a um restaurante de primeira linha. Mas temos que trilhar o caminho que traga benefícios para a sociedade como um todo. O Governo, que está começando a abrir a avenida, deve decidir onde vai atuar de forma incisiva, onde fará composições e qual o foco do mercado externo. Ele está fixando o padrão de produtos com características específicas. Cabe ao mercado apresentar as soluções.

Mário Teza ? Quando defendemos o software livre, ou seu uso preferencial, não significa que nós queremos reserva de mercado. Até porque software livre é incompatível com a idéia de uma solução em um único país. Não existe isso na área de tecnologia. O software livre, ao contrário, permite a integração internacional. Um componente pode ser desenvolvido aqui, e outras na Índia, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, ou China. Para o Brasil ser pólo de desenvolvimento do software livre no mundo empresarial significa se conectar com o mundo em igualdade de condições dos centros mais avançados da tecnologia. Para o empresário, significa integrar uma enorme rede de desenvolvimento internacional. O pro-blema é que os US$ 200 milhões que exportamos no ano passado, basicamente é de software embarcado [software acoplado ao hardware]. Não se consegue competir em escala com as grandes empresas com pacote off. A única alternativa que temos para competir em nível mundial é o software livre. E isso não somos nós que estamos dizendo. Cito o vice-presidente mundial para estratégia coorporativa da Microsoft que esteve na Comdex há dois anos e disse que estávamos ingressando na era dos web services, da hospedagem de hardware e software, e de provimento de soluções. Essa é a visão da empresa que mais ganha com o modelo tradicional. Concordo com Sérgio Rosa: não é preciso que os empresários transformem imediatamente seus produtos em software livre. Precisamos, neste primeiro momento, que os produtos brasileiros e internacionais sejam multiplataforma e que operem em ambiente livre para que os empresários possam perceber suas vantagens.

O software livre serve para todos os casos ou somente em situações específicas?

Sérgio Rosa ? Vejo a questão conjuntural. Não é dogma a discussão do software livre. Primeiro, quero expressar uma preocupação. Quando se apresenta uma meta que está sendo discutida no Governo, de exportação de US$ 2 bilhões com software, e sabemos que o potencial brasileiro está em torno de US$ 1 bilhão. Esse outro bilhão pode ser aquela operação típica da indústria de hardware, mas que pode acontecer com o software, de draw back: a empresa multinacional precisar exportar e o que chega aqui e ela manda embora. Isso não significa desenvolvimento tecnológico para o país, mas só balança comercial com a matriz. Isso nos interessa. Precisamos ampliar o leque de alianças do software livre com o desenvolvimento do software nacional. Estabelecermos padrões de sistema operacional, correio eletrônico, servidores Web, aplicadores tipo geoprocessamento. O Governo precisa ter parceria com o empresariado nacional, que pode ter o seu produto proprietário portável nessas plataformas. Isso interessa ao país, embora não seja o mundo que desejo. Melhor seria tudo livre. Até porque a questão do software dentro de um datacenter não é o produto que vai ser o negócio e, sim, a transação. O importante é ter a aliança.

Alexandre Moura ? Penso que a palavra-chave será parcerias. Esta é uma decisão de sociedade. No momento em que o Governo e a Nação, optarem por estes padrões, eles serão utilizados, dando preferência a produtos brasileiros, sem nenhum xenofobismo. Mas temos de fazer o que todos os países de primeiro mundo fazem: eles simplesmente colocam barreiras. Aderir aos padrões que o Governo e a sociedade escolheram certamente dará parceria e certamente terá resultados financeiros para o país. Sempre digo o seguinte: temos o Governo, as empresas e a sociedade, uma entidade chamada Brasil. Aquilo o que é importante para o país, agradará a todos. Alguns irão ficar mais satisfeitos, outros menos, mas no cômputo geral as coisas irão caminhar para a direção correta. A parceria acabará ocorrendo com o empresariado de foco nacional. Em alguns lugares, o software brasileiro não é aceito. Vimos isso no passado e temos de mudar essa cultura.

Sérgio Amadeu ? O software livre, em geral, é de me-lhor qualidade que o software proprietário. O grande exemplo é o software Apache, que hoje domina 64,5% do mercado de servidores. E, a despeito de as pessoas não acre-ditarem, é um software livre desenvolvido compartihadamente e, por coincidência, é gratuito. Não é à toa que seu uso é disseminado. A escolha se deve as suas vantagens de segurança, escalabilidade, portabilidade. Enfim, é um software extremamente importante no mundo Web. Digo isso para diferenciar, porque há pessoas que dizem: "software livre é para pobre". Não. Software livre é para quem quer ter qualidade, capacidade tecnológica e segurança. Quanto à exportação, além da questão que estava sendo colocada, gostaria de dar uma outra visão. O mundo do software proprietário tem poucas oportunidades para a indústria de software brasileira. Precisamos exportar desenvolvimento, serviço, capacitação. Ninguém fala, mas temos na América do Sul softwares abertos na saúde pública e várias soluções concretas que poderíamos vender para outros países. Mas deixamos esse mercado para os norte-americanos venderem produtos de software proprietário. A Embrapa tem um sistema que se fosse em código aberto poderia ser vendido como solução para os países vizinhos. Essa solução inclui o software embarcado. O problema é quando ficamos pensando que temos de vender coisa de prateleira. Neste setor não conseguiremos ter grande desempenho. O nosso desempenho está em vender solução e melhorar a nossa balança de serviço. E isso a gente não faz.

Como vamos conseguir quebrar essa Resistência?

Alexandre Moura ? Sempre digo que não somos um país pequeno. Temos condições de fazer políticas de governo voltadas para determinadas áreas e servir de espelho para vários países do mundo. Pode parecer paradoxal estarmos aqui discutindo software livre e eu falar de padrões. Quero apontar, porém, alguns pontos para raciocinarmos. Se o governo brasileiro estabelecer seu formato e comprá-lo pelo menor preço, teremos uma "corrida ao ouro" para atender a um cliente muito poderoso. Algumas grandes empresas, como Petrobras e o Serpro, comunicariam ao mercado: "compro qualquer coisa que tenha esse padrão". Teríamos liberdade total em aplicações que chamaria de nicho, e soluções ? a palavra continua sendo forte, mas é bom usar - proprietárias de empresas brasileiras, que podiam ser exportadas. Teríamos as soluções mistas e as de softwares livres para levar a outros países a nossa capacidade e conhecimento tecnológico. O custo de inclusão digital é extremamente baixo, porque poderíamos vender um milhão de cópias de determinado produto, feito nesse padrão, por R$ 1,00, ou R$ 2,00. Já pensaram fazermos uma aliança com os chineses para uma determinada aplicação?

Sérgio Rosa ? Como é sua experiência de trabalho com os chineses? Alexandre Moura ? Eles têm essa lógica e duas posições em relação ao software livre: primeiro é combater a Microsoft, tanto que o valor da empresa baixou na China; a outra é gerar habilidade local em desenvolvimento em rede. Eles têm soluções que podem vender no Japão ou na Austrália, e isso vai trazer dinheiro. A solução é proprietária, entre aspas, porque é de uma empresa chinesa, mas da qual o Governo também faz parte. Em algumas áreas, os softwares são totalmente livres. Essa é uma saída que gera exportação, porque, no momento em que você cria produtos específicos, que nem todos precisam, para resolver problemas específicos, pode dizer: "isso aqui é propriedade de algumas empresas". O importante é que sejam empresas locais, que tenham parceria com empresas de outros países.

Sérgio Amadeu ? O Governo tem que comprar softwares livres, que é o melhor desenvolvido no mundo, para aplicações em sistemas operacionais e aplicativos de escritórios. É insustentável colocar soluções proprietárias em 200 ou 100 mil escolas, mesmo que seja pagando R$ 1,00 pelo preço unitário da licença de uso. A questão, para mim, é clara: nesses casos tenho de usar o software livre. Os demais casos precisam ser estudados da melhor forma possível, inclusive, tendo em vista a exportação. Mas gostaria de voltar ao assunto do software embarcado. Todos os aparelhos elétrico-eletrônicos usarão processamentos e se tornarão aparelhos mais inteligentes. Ora, para o Brasil, embarcar nesse aparelho software livre é estratégia vital, porque não remete nenhum royaltie ao exterior, além de passar a dominar a técnica que melhor se adequa aos seus aparelhos. A Itautec, uma empresa nacional, está fazendo isso. Não sei porque há preconceito contra empresa nacional. E se não o fizermos, mais uma vez o Brasil estará perdendo o pulo, como já foi dito.

Sério Rosa ? O Serpro fez uma audiência pública com empresas para integrar uma solução. A Empresa já está capacitada para transformar qualquer rede local, proprietária, em rede livre. Foi uma coisa espantosa. A equipe foi capacitada de junho para cá e está com muita vontade de fazer. O que não temos, ainda, é um administrador e uma gestão de rede a distância para fazer as atualizações dos programas e de todos os mecanismos de segurança. Como não é seu papel fazer isso por conta própria, chamamos empresas para desenvolverem a solução. Isso traz a iniciativa privada para trabalhar com o Governo, junto com o software livre, gerando receita e desenvolvimento. Estamos esperando que as empresas se manifestem para fazermos essa integração, para pararmos de pagar licença de admi-nistração de rede e pararmos de pagar licença com as redes locais. A questão do software embarcado, já mencionada, é importantíssima, assim como o papel do Brasil na política internacional de software. Ser fábrica de software tem sido uma demanda de vários empresários. Isso traz divisas agora, mas não gera conhecimento e sim dependência. Nós seremos uma fábrica para receber o requisito, e desenvolvermos um programa-objeto. Posso fazer dinheiro, mas não posso considerar como política carro-chefe do Brasil. A política é a do conhecimento.

Alexandre Moura ? Temos que juntar o que há de bom no software livre com o que há de bom nas outras alternativas e criar nichos onde detenhamos esse conhecimento, fazendo parcerias com outros países. Como empresário venho propondo isso aos chineses há bastante tempo.

Esta é uma questão mundial?

Mário Teza ? O debate e as parcerias estão ocorrendo no mundo inteiro. O projeto software livre do Rio Grande do Sul foi convidado para participar de consórcio internacional na Europa com o objetivo de criar um pólo mundial no uso de software livre para a construção de rede de negócios entre governos, empresas privadas e Organizações-Não Governamentais como a nossa. Estamos juntos com ONGs no Reino Unido, Bélgica e Espanha. O Japão está investindo alguns milhões de dólares para pesquisa de uso intensivo de softwares livres. Várias grandes companhias japonesas já estão usando software livre embarcado, como a Sony. Na América Latina, o governo argentino vem trabalhando intensivamente conosco nessa questão, e no Peru, houve recentemente uma grande conferência. O mundo inteiro está nessa.

Sérgio Amadeu ? É polêmico o que vou falar. Quero reforçar duas coisas: a tendência do mundo é substituir o padrão software proprietário. Por que isso? Dou dois exemplos: nós, na área de criptografia e criptossistemas, estamos construindo, junto com o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação, mais o ITA, mais o CETESC, a Marinha do Brasil, mais empresas privadas, uma plataforma criptográfica aberta e plenamente auditável. Qual o problema disso? Existem empresas no mundo que fazem isso de maneira proprietária e vivem descontinuando seus serviços. Aliás, a plataforma que hoje o Brasil usa, e foi comprada na gestão anterior, está descontinuada, estamos com o maior problema, pois a empresa quebrou, e o que vimos? Na área de segurança lógica, temos de dominar isso. Como? Divulgando nosso domínio no mundo inteiro. Ninguém vai dizer que temos de tornar esse software proprietário. Se fizer isso, o torno inseguro. Outra questão que quero deixar clara: quem vai impedir que articulemos com os escritórios de engenharia e arquitetura para termos uma solução barata aos produtos extremamente caros que são vendidos, que são indispensáveis à construção de plantas de modelos de engenharia?

Os custos com a implantação do software livre compensam?

Alexandre Moura ? Essa é uma discussão que será resolvida ao longo do tempo. Qualquer resposta nesse momento é prematura. Ninguém sabe se é bom ou ruim. Há argumentos plausíveis para mais e argumentos plausíveis para menos. Mário Teza ? Há o problema de mão-de-obra, pois não temos muita mão-de-obra qualificada. Essa pergunta se responde da forma como eu gostaria de colocar totalmente. Há coisas que são de bom-senso. Ninguém discorda que software livre combate monopólio, que dissemina conhecimentos, principalmente nas universidades. Penso que, dificilmente teremos, daqui para a frente, interface com o sistema operacional que não seja software livre. Isso termina disseminando cada vez mais.

Sérgio Amadeu ? É uma questão básica de mercado. Existem consultorias que são pagas como advogados fazendo pareceres. Dependendo de quem contrate, será dito que o custo é maior ou menor. E algumas se desmo-ralizam por causa disso. O custo de implementação do software livre é muito menor do que o custo de implementação do software proprietário. Porque, é básico, primeiro, não tem de pagar licença de uso a ninguém; segundo, não tem de fazer upgrade pago; terceiro, não envia royalties ao exterior, o custo macroeconômico do país é muito menor; quarto, se você tem uma base instalada crescente, o mercado cria pessoas em condições de prestar suporte a essa base. Se vou informatizar o sul do Piauí, o que é mais barato, software proprietário ou livre? É o software livre porque ali há uma baixíssima base instalada de software proprietário. PRA ENCERRAR, SOFTWARE LIVRE EM UMA PALAVRA... Alexandre Moura ? Liberdade. Sérgio Amadeu ? Compatilhamento e autonomia. Mário Teza ? Liberdade. Sérgio Rosa ? Voto com Alexandre. Alexandre Moura ? Vejam bem não sou tão radical: tem que ter ponderações em algumas áreas. Sérgio Rosa ? Digo autonomia. Alexandre Moura ? Autonomia talvez seja uma palavra melhor. Mário Teza ? Vou recuar e assumir igual a sua: autonomia. Sérgio Amadeo ? Preferencialidade . Sérgio Rosa ? Mais uma palavra: inclusão. Sérgio Amadeu ? E a última: sustentabilidade.

Fonte: http://portal.softwarelivre.org/news/1670

-- MarioTeza - 10 Aug 2004

Topic revision: r1 - 10 Aug 2004 - 21:18:24 - MarioTeza
 
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