Sociedade civil definirá gestão e políticas para Internet no Brasil
Editoria: Comitê Gestor da Internet
16/Apr/2004 - 14:29
Em sistema inédito no mundo, o Comitê Gestor da Internet no Brasil elege 11 representantes da sociedade civil neste semestre. Junto a outros 9 membros indicados pelo governo, eles coordenarão as iniciativas de serviços do setor.
O órgão, criado em 1995 para coordenar e integrar todas as iniciativas de serviços do setor em território nacional, era composto até o ano passado por cinco representantes do governo e quatro da sociedade civil, todos indicados conjuntamente pelos ministérios da Ciência e Tecnologia e das Comunicações. Em setembro de 2003, após a pressão da sociedade civil para a formação de um comitê mais democrático, o presidente Lula alterou por decreto o CGIBr e estipulou o processo de eleição dos representantes da sociedade civil.
"O Comitê sempre teve a participação da sociedade civil, mas era um indicação dos governos de cada época. Desta vez, o Comitê terá um instrumento legal que permite a escolha da parte da sociedade civil pela própria sociedade civil. Isto é um avanço mundial. Em nenhum lugar do mundo se pratica esse modelo ainda", explica Mario Teza, atual representante da sociedade civil no Comitê. "Esperamos que na Cúpula da Sociedade da Informação, que se realizará no ano que vem na Tunísia, em Tunis, este modelo seja adotado no mundo todo pela internet mundial", acrescenta.
As onze vagas da sociedade civil estão dividas em três grupos. Quatro vão para o setor empresarial (uma para provedores de acesso e conteúdo da Internet; uma para provedores de infra-estrutura de telecomunicações; uma para a indústria de bens de informática, telecomunicações e softwares; e uma para empresários usuários da Internet), três se destinam à comunidade científica e tecnológica, e quatro são voltadas para o terceiro setor. Cada um destes segmentos deverá formar um colégio eleitoral que elegerá, a cada três anos, através de voto não-secreto, os seus representantes.
Por enquanto, só podem votar internautas que estejam organizados em associações, já que, segundo o Comitê, ainda não há condições seguras de realizar uma eleição via Internet em todo o país de maneira segura. Mas todas as entidades, associações e organizações não governamentais registradas antes do dia 15 de março de 2002 podem participar do processo. Mesmo aquelas cujo trabalho não está diretamente relacionado à internet. As candidaturas também são livres.
Os eleitos substituirão os integrantes provisórios da sociedade civil, nomeados em janeiro deste ano ao lado dos membros indicados pelo governo para organizar o processo eleitoral. Além deles, o CGIBr conta com representantes da Casa Civil, dos ministérios da Ciência e Tecnologia, das Comunicações, da Defesa, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, do Planejamento, da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, com um representante do Fórum Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de Ciência e Tecnologia e com um membro com notório saber em Internet, também indicado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia.
"O ineditismo do modelo democrático brasileiro é que os diversos segmentos da sociedade civil envolvidos com a Internet terão direito de representação. A sociedade civil, através de entidades dos empresários das várias áreas, centros de pesquisa do país inteiro, ONGs e sindicatos do terceiro setor serão maioria no Comitê Gestor. A representação governamental federal e estadual será minoria", diz Teza.
O grande diferencial da nova composição, norteada pela democratização da governança da Internet no Brasil, é o primeiro passo para tornar efetiva a participação da população nas decisões que envolvem a implantação, a administração e o uso da web. O próprio processo que definiria as regras para a escolha dos representantes da sociedade foi aberto, recebendo contribuições por meio de uma consulta pública feita através da rede. O formato do edital permaneceu quase um mês disponível para críticas e sugestões.
Outra alteração feita pela Presidência foi a criação do comitê como pessoa jurídica, capaz de administrar a arrecadação de valores de registro de nomes de domínio para a Internet no Brasil – a mais reconhecida atribuição do CGIBr. Através da cobrança de anualidades de manutenção dos domínios – uma das mais baratas do mundo, cerca de US$ 10 – o Comitê possui um caixa de R$ 60 milhões que ainda hoje é administrado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O Brasil é o oitavo país com maior número de registros na Internet, com 3,1 milhões de hosts (servidores conectados permanentemente à internet) com a terminação ".br". O primeiro da lista é o Estados Unidos, com mais de 162 milhões de registros.
Abertura política:
O CGIBr é o guardião do bom funcionamento da Internet no Brasil. Além de coletar, organizar e disseminar informações sobre os serviços do setor no país, cabe ao Comitê, entre outras tarefas:
- propor programas de pesquisa e desenvolvimento relacionados à Internet, que permitam a manutenção do nível de qualidade técnica e inovação no uso, bem como estimular a sua disseminação em todo o território nacional, buscando oportunidades constantes de agregação de valor aos bens e serviços a ela vinculados;
- estabelecer diretrizes para a organização das relações entre o governo e a sociedade, na execução do registro de nomes de domínio e na alocação de endereços IP (Internet Protocol);
- promover estudos e recomendar procedimentos, normas e padrões técnicos e operacionais para a segurança das redes e serviços de Internet, bem assim para a sua crescente e adequada utilização pela sociedade;
- adotar os procedimentos administrativos e operacionais necessários para que a gestão da Internet no Brasil se dê segundo os padrões internacionais aceitos pelos órgãos de cúpula da Internet.
Uma leitura atenta nas funções do CGIBr permite, no entanto, vislumbrar a importância política do órgão. "Atualmente, os servidores do Comitê já rodam softwares livres. O CGIBr pode então se tornar um importante estímulo à adoção e desenvolvimento de softwares livres no Brasil", acredita Gustavo Gindre, do Indecs (Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura). "E, ainda que não seja sua atividade-fim, os estudos e pesquisas do CGIBr podem representar importantes ferramentas para uma melhor radiografia da exclusão digital no Brasil e a adoção de políticas públicas de inclusão", aponta.
Para Gindre, o CGIBr, ao reunir governo e sociedade civil, pode contribuir para o desenvolvimento de ferramentas de governo eletrônico e deve também ser palco dos debates sobre acesso à informação e o direito à privacidade, que devem se opor na medida em que cresce a demanda dos governos por uma maior capacidade em monitorar o conteúdo das comunicações na Internet.
O Comitê pode ainda se tornar, nos fóruns internacionais, um importante defensor da descentralização da gerência dos servidores-raiz da Internet, da gestão dos números de IP (referência de cada computador ligado à Internet) e da administração dos domínios de primeiro nível (por exemplo, ".com", ".gov" e ".org"). Hoje, todos esses processos estão sob responsabilidade da Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN), uma organização sem fins lucrativos, com sede na Califórnia, que opera, desde o governo Bill Clinton, por mandato do Departamento de Comércio dos Estados Unidos.
"As tabelas com os números de IP são o correspondente, na Internet, aos números de telefone. Basta, portanto, que se altere o endereço de um IP para que mensagens de correio eletrônico não cheguem ao destinatário ou que um site não possa ser acessado. Durante a Guerra da Sérvia, por exemplo, o governo norte-americano chegou a cogitar a possibilidade de retirar da tabela dos servidores-raiz todos os IPs da Sérvia, fazendo com que o país adversário estivesse fora da Internet", conta Gindre.
Movimentos sociais de todo o mundo reclamam que a gestão da Internet não pode estar submetida a um único governo e que, no lugar da ICANN, deveria surgir um órgão multilateral, de gestão mais transparente. A posição oficial do Brasil neste debate não depende exclusivamente do CGIBr, mas o órgão pode vir a ter importante peso nos debates internacionais sobre o futuro da gestão mundial da Internet.
O edital definitivo que estabelecerá os prazos da eleição deve ser publicado em breve, mas depende da assinatura de três ministros – da Casa Civil, das Comunicações e da Ciência e Tecnologia. Para os membros do Comitê, a demora se dá, principalmente, pelo ineditismo da iniciativa, que faz com que não existam modelos-base para um processo como este. Assim que o edital for publicado, as entidades com dois anos de existência legal poderão inscrever-se no site do Comitê para se habilitarem a votar e serem votadas.
Para saber mais sobre a eleição do Comitê Gestor da Internet do Brasil, visite a página www.cg.org.br
Membros do Comitê Gestor da Internet no Brasil:
Ministério da Ciência e Tecnologia
ARTHUR PEREIRA NUNES (coordenador) - titular
ANTENOR CESAR VANDERLEI CORRÊA - suplente
Casa Civil da Presidência da República
SÉRGIO AMADEU DA SILVEIRA - titular
RENATO DA SILVEIRA MARTINI - suplente
Ministério das Comunicações
PLÍNIO DE AGUIAR JÚNIOR - titular
ANTÔNIO BEZERRA DE ALBUQUERQUE NETO - suplente
Ministério da Defesa
ANTONIO CARLOS AYROSA ROSIÈRE - titular
LUIZ ANTONIO DE SOUZA CORDEIRO - suplente
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior
MANOEL FERNANDO LOUSADA SOARES - titular
ROGÉRIO ANTÔNIO SAMPAIO VIANNA - suplente
Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão
ROGÉRIO SANTANNA DOS SANTOS - titular
RODRIGO ORTIZ D‘AVILA ASSUMPÇÃO - suplente
Agência Nacional de Telecomunicações
JOSÉ ALEXANDRE NOVAES BICALHO - titular
ELISABETH BRAZ PEREIRA GOMES - suplente
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
JOSÉ ROBERTO LEITE - titular
FELIZARDO PENALVA DA SILVA - suplente
Fórum Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de Ciência e Tecnologia
FERNANDO OTÁVIO DE FREITAS PEREGRINO - titular
DENISE APARECIDA CARVALHO - suplente
Representante de notório saber em assuntos de internet
DEMI GETSCHKO
Representantes do setor empresarial (em caráter provisório)
a) segmento dos provedores de acesso e conteúdo da Internet
ANTÔNIO ALBERTO TAVARES - titular
JOÃO TRANCHESI JUNIOR - suplente
b) segmento dos provedores de infra-estrutura de telecomunicações
JONAS DE OLIVEIRA JUNIOR - titular
LUIS JOHN CUZA - suplente
c) segmento da indústria de bens de informática, de bens de telecomunicações e de software do setor empresarial
JOSÉ DE MIRANDA DIAS - titular
ANTONIO HUGO VALERIO JUNIOR - suplente
d) segmento do setor empresarial usuário
CÁSSIO JORDÃO MOTTA VECCHIATTI - titular
LUIZ ALBERTO MATZENBRACHER - suplente
Representantes do terceiro setor (em caráter provisório)
a) titulares
CARLOS ALBERTO AFONSO
MÁRIO LUÍS TEZA
THAIS CORRAL
ALEXANDRE CICONELLO
b) suplentes
SILVANA LEMOS
ALEXANDRE BEBIANO
DJALMA VALOIS
PAULO HENRIQUE LIMA
Representantes da comunidade científica e tecnológica (em caráter provisório)
a) titulares
CLAUDIA MARIA BAUZER MEDEIROS
CARLOS JOSÉ PEREIRA DE LUCENA
NELSON SIMÕES DA SILVA
b) suplentes
EDSON NORBERTO CÁCERES
LUIZ FERNANDO GOMES SOARES
ROBERT CARLISLE BURNETT
*.Com informações do Boletim Prometheus, publicação do Indecs
(Fonte: Boletim Carta Maior - Bia Barbosa* - São Paulo/SP, 13/04/2004)
Fonte: Agência Carta Maior
Fonte:
http://portal.softwarelivre.org/news/1994
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MarioTeza - 10 Aug 2004