PROJETO HIPÁTIA
“ Os amantes e os loucos têm mentes tão febris Tantas fantasias tão vividas que compreendem Mais do que a razão fria jamais compreenderá. O lunático, o amante e o poeta Estão todos repletos de imaginação...”
(Sonho de uma noite de verão) William Shakespeare
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Saber não equivale a ser-se muito esperto; a inteligência é mais do que informação: é simultaneamente, discernimento e capacidade de utilizar e coordenar a informação. E, todavia, a informação a que temos acesso é o índice da nossa inteligência. ...
Quando os nossos genes não conseguiram alojar toda a informação necessária a sobrevivência fomos lentamente inventando cérebros. Mas então chegou a altura, talvez há 10.000 anos, em que tivemos necessidade de saber mais do que convenientemente podiam conter os cérebros. Aprendemos a acumular enormes quantidades de informação fora de nossos corpos. Somos a única espécie no planeta, tanto quanto sabemos, que inventou uma memória comunal não alojada nem nos genes nem no cérebro. O armazém dessa memória chama-se biblioteca.
Um livro é feito de uma árvore. É um conjunto de partes lisas e flexíveis (que ainda se chamam folhas) impressas em caracteres de pigmentação escura. Dá-se uma vista de olhos e ouve-se a voz de outra pessoa - talvez alguém que já tenha morrido há milhares de anos. Através dos milênios, o autor está a falar, com clareza e em silêncio, dentro da nossa cabeça, directamente para nós. A escrita foi talvez a maior das invenções humanas, ligando as pessoas, cidadãos de épocas distintas que nunca chegaram a conhecer. Os livros quebram as cadeias do tempo, provam que os seres humanos são capazes de exercer a magia. Alguns dos autores mais antigos escreveram sobre o barro. A escrita cuneiforme, o antecessor remoto do alfabeto ocidental, foi inventado no Próximo Oriente, há cerca de 5.000 anos; o objetivo era manter registros: a compra de cereais, a venda de terra, os triunfos do rei, os estatutos dos sacerdotes, as posições das estrelas, as orações aos deuses. Durante milhares de anos, a escrita foi cinzelada em barro e pedra, riscada sobre a cera, casca de árvore ou couro; pintada em bambu, papiro ou seda- mas sempre uma cópia de cada vez e, com excepção das inscrições nos monumentos, sempre para pequeno número de leitores. Foi então que, na China, entre o século II e o século VI, se inventaram a tinta e a impressão em blocos de madeira gravada, o que permitia fazerem-se e distribuirem-se muitas cópias do mesmo trabalho. A idéia demorou 1.000 anos a atingir a Europa remota e atrasada. Depois , de repente, os livros começaram a ser impressos por todo o mundo. Exatamente antes da invenção dos caracteres móveis, cerca de 1.450, não havia mais do que algumas dezenas de milhares de livros em toda a Europa, todos manuscritos: apenas quase tantos quantos havia na China em 100 ª. C e um décimo dos existentes na grande Biblioteca de Alexandria. Cinqüenta anos mais tarde, cerca de 1.500, havia 10 milhões de livros impressos. A cultura ficara ao dispôr de quem quer que soubesse ler. A magia estava por toda a parte.
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Uma vez já, na nossa história, existiu a promessa de uma brilhante civilização científica. Resultante do grande acordar jônico, a Biblioteca de Alexandria representava, dois mil anos atrás, uma cidadela onde os melhores intelectos da antigüidade estabeleceram os fundadmentos par o estudo sistemático da matemática, da física, da biologia, da astronomia, da literatura, da geografia e da medicina. Ainda hoje construimos sobre essas bases. A Biblioteca foi construida e era financiada pelos Ptolomeus, esses reis Gregos que herdaram a parte egípcia do império de Alexandre o Grande. Desde a sua fundação, no terceiro século antes de Cristo, até a sua destruição sete séculos depois, foi o cérebro e o coração do mundo antigo. Alexandria era a capital editorial do planeta. É claro que na altura não existia a imprensa. Os livros eram caros; cada exemplar tinha de ser copiado a mão. A Biblioteca era o repositório das melhores cópias do mundo. Foi ali inventada a arte da edição critica. O Antigo Testamento chegou-nos directamente das traduções gregas feitas na Biblioteca de Alexandria. Os Ptolomeus utilizaram muita da sua enorme riqueza na aquisição de todos os livros gregos, assim como dos trabalhos originários de África, da Pérsia, da Índia, de Israel, e de outras regiões do mundo. Ptolomeu III Evergeto tentou pedir em empréstimo a Atenas os manuscritos originais ou as cópias oficiais das grandes tragédias de Sófocles, Ésquilo e Eurípedes
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mostravam-se reticentes em deixar os manuscritos sair das suas mãos por um instante que fosse. Só depois de Ptolomeu Ter se assegurado a devolução através de um enorme depósito em dinheiro, aceitaram eles em ceder as peças. Mas Ptolomeu atribuia mais valor a esses manuscritos do que ao ouro ou a prata. Preferiu por consequinte perder a caução e conservar o melhor possível, os originais na sua biblioteca. Os Atenienses ultrajados tiveram de se contentar com as cópias que Ptolomeu, mal envergonhado, lhes deu. Raro se viu um Estado encorajar a busca da ciência com tal avidez.
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O último cientista a trabalhar na Biblioteca foi... uma mulher! Distinguiu-se na matemática na astronomia, na física e foi ainda a responsável pela escola de filosofia neo-platônica – uma extraordinária diversificação de atividade para qualquer pessoa da época. O seu nome, Hipátia. Nasceu em Alexandria, em 370. Numa época em que as mulheres tinham poucas oportunidades e eram tratadas como objectos, Hipátia moveu-se livremente e sem problemas nos domínios que pertenciam tradicionalmente aos homens. Segundo todos os testemunhos, era de grande beleza. Tinha muitos pretendentes mas rejeitou todas as propostas de casamento. A Alexandria do tempo de Hipátia – então desde há muito sob o domínio romano – era uma cidade em que se vivia sob grande pressão. A escravidão tinha retirado à civilização clássica a sua vitalidade, a Igreja Cristã consolidava-se e tentava eliminar a influência e a cultura pagã. Hipátia encontrava-se no meio dessas poderosas forças sociais. Círilo o Arcebispo de Alexandria, desprezava-a por causa de sua estreita relação co o governador romano e porque ela era um símbolo da sabedoria e da ciência, que a Igreja nascente identificava com o paganismo. Apesar do grande perigo que corria, continuou a ensinar e a publicar até que no anos de 415, a caminho do seu trabalho, foi atacada por um grupo de fanáticos partidários do arcebispo Cirilo. Arrastaram-na para fora do carro, arrancaram-lhe as roupas e, com conchas de abalone, separaram-lhe a carne dos ossos. Os seus restos foram queimados, os seus trabalhos destruidos, o seu nome esquecido. Cirilo foi santificado. A glória da Biblioteca de Alexandria é agora apenas uma vaga recordação. Tudo aquilo que dela restava foi destruido logo a seguir a morte de Hipátia. Foi como se a civilização inteira tivesse efectuado uma auto-lobotomia, e grande parte dos seus laços com o passado, das suas descobertas, das suas idéias e das suas paixões extinguiram-se para sempre.
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Os livros permitem-nos viajar através do tempo, de beber na própria fonte o saber dos nossos antepassados. A biblioteca pões-nos em contacto com as concepções e o saber, extraídos da natureza, das maiores mentes até agora existentes, com os melhores professores, provindos de todo o planeta e de toda a nossa história, para nos instruírem sem nos fatigarmos e para nos inspirarem a dar a nossa contribuição ao saber coletivo da espécie humana. As bibliotecas públicas dependem de contribuições voluntárias. Considero que a saúde de nossa civilização, a profundidade da percepção que temos das bases de apoio á nossa cultura e o nosso cuidado relativamente ao futuro podem ser medidos pelo tipo de apoio que damos as nossas bibliotecas. “
(Trechos do livro Cosmos, de Carl Sagan, versão portuguesa, editora Gradiva, 1993)
Idéia Básica do Projeto a Ser Desenvolvida
Através do software livre GNUteca, constituir a Biblioteca Hipátia, reunindo as 3.100 bibliotecas escolares estaduais, a Biblioteca Pública, o Arquivo Histórico e todas as bibliotecas públicas e privadas que queiram participar.
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MarioTeza - 27 Jun 2004