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Tuesday May 05, 2009
Produzo software no Brasil, na Rússia, na Índia ou na China?
Em um vôo para o Vale do Silício, viajam um Brasileiro, um Russo, um Indiano e um Chinês. Todos eles estão levando um portfólio que contempla as características tecnológicas e econômicas de seus respectivos países. Em tempos de crise, a missão de nossos personagens é capturar capital externo, alavancando assim a produtividade de software em seus países. Veja o que nossos personagens disseram aos americanos:
O portfólio do brasileiro
O Brasil possuí cerca de 190 milhões de habitantes. Uma das grandes conquistas brasileiras foi à estabilização econômica ocorrida nos últimos 15 anos. O PIB, em 2007, chegou à casa de USD 1.5 trilhão. Em 2008 esse valor cresceu 5%. A taxa de inflação, em 2007, atingiu 4.5%, já em 2008, a referida taxa chegou a 6.8%. Neste mesmo ano as exportações chegaram a USD 194 bilhões com um superávit de USD 25 bilhões. O Brasil possui a quarta maior indústria de aviões do mundo. Somos os sexto na produção de automóveis. Nosso país é imbatível na produção soja, café, cana e carne bovina. Na área energética somos auto-suficientes na produção de petróleo desde 2006. Descobrimos o pré-sal que irá nos possibilitar exportar uma grande quantidade de barris a partir de 2014. Na esfera tecnológica possuímos 150 milhões de celulares, cerca de 1/3 de nossa população acessa a internet. Criamos a idéia do voto eletrônico e temos o melhor sistema bancário/financeiro do mundo. Mundialmente, o Brasil abocanha USD 70 bilhões das operações de offshore. Crescemos 14% em 2007 e 12% em 2008. Nossa meta é exportar USD 5 bilhões nos próximos 3 anos. Para isto necessitaremos formar 100 mil novos profissionais e reduzir a nossa carga tributária em 15%. Anualmente, no Brasil são abertas 150 mil vagas universitárias na área de TI. Noventa mil candidatos se inscrevem nos processos seletivos, 44 mil se matriculam e 17 mil se formam. O governo tenta estabelecer políticas sociais para minimizar esse gap. Setenta e nove empresas possuem certificação CMMI, destas 8 se encontram no nível 5 de maturidade. Falamos português. Uma parcela mínima da população fala inglês. Um programador brasileiro ganha, em média, USD 15.000 por ano, já um gerente de projeto recebe USD 32.000. Por fim, nosso fuso, em relação à New York, é de 2 horas.
O portfólio do russo
A Rússia possuí cerca de 140 milhões de habitantes. O PIB russo, em 2007, chegou à casa de USD 1.45 trilhão. Em 2008 esse valor cresceu 8%. A taxa de inflação, em 2007, atingiu 11.9%, já em 2008, a referida taxa chegou a 12,5%. Neste mesmo ano as exportações chegaram a USD 283 bilhões com um superávit de USD 110 bilhões. A Rússia é grande produtora de gás natural, metais, produtos químicos e equipamentos agrícolas. Na área energética os russos exportam gás e petróleo (5 milhões de barris por dia). Na esfera tecnológica aquele país possui 170 milhões de celulares, cerca de 30 milhões de pessoas acessam a internet. Na Europa e na Ásia, excluindo da índia, a Rússia abocanha cerca 11% das operações de offshore. Na esfera universitária a Rússia possui o maior número de formados (nas mais variadas áreas) de toda Europa. O número de empresas russas certificadas (em todos os níveis) não chega a 10. Grande parte da população fala inglês devido à proximidade com a união européia. Um programador russo ganha, em média, USD 14.000 por ano, já um gerente de projeto recebe USD 36.000. Por fim, o fuso russo, em relação à New York, é de 8 horas.
O portfólio chinês
A China possuí cerca de 1.3 bilhão de habitantes. O PIB chinês, em 2007, chegou à casa de USD 3.41 trilhão. Em 2008 esse valor cresceu 9%. A taxa de inflação, em 2007, atingiu 6.6%, já em 2008, a referida taxa chegou a 7%. Neste mesmo ano as exportações chegaram a USD 937 bilhões com um superávit de USD 28 bilhões. A China é grande produtora de alumínio, armas, roupas, carros, motos, equipamento eletrônico e cimento. Na área energética os chineses importam 3 milhões de barris por dia. Na esfera tecnológica aquele país possui 547 milhões de celulares, cerca de 100 milhões de pessoas acessam a internet. Mundialmente a China abocanha cerca 3% das operações de offshore. O número de empresas chinesas certificadas em CMMI é de 465, porém somente 34 destas estão no nível 5 de maturidade. Língua oficial, chinês / mandarim. A língua inglesa ainda não foi institucionalizada. Um programador chinês ganha, em média, USD 7.000 por ano já um gerente de projeto recebe USD 36.000. Por fim, o fuso chinês, em relação à New York, é de 11 horas.
O portfólio indiano
A índia possuí cerca de 1.1 bilhão de habitantes. O PIB indiano, em 2007, chegou à casa de USD 2.9 trilhões. Em 2008 esse valor cresceu 8%. A taxa de inflação, em 2007, atingiu 5.5%, já em 2008, a referida taxa chegou a 7%. Neste mesmo ano as exportações chegaram a USD 115 bilhões com um déficit de 25% em relação ao ano anterior. O produto indiano no mercado internacional é software. Na área energética os indianos importam 2 milhões de barris de petróleo por dia. Na esfera tecnológica aquele país possui 269 milhões de celulares (crescimento de 327% no último ano), cerca de 80 milhões de pessoas acessam a internet. A índia congrega cerca de 70% das operações mundiais de offshore e cresceu 30% na área de TI. A meta dos indianos é movimentar, só na de software, USD 112 bilhões até 2012. Na área de TI a Índia forma 200 mil profissionais/ano. O número de empresas indianas certificadas (em todos os níveis) é 323, destas 151 estão no nível 5 de maturidade. A língua oficial daquele país é o inglês. Um programador indiano ganha, em média, USD 7.000 por ano, já um gerente de projeto recebe USD 10.000. Por fim, o fuso indiano, em relação à New York, é de 10 horas.
Após a apresentação dos portfólios, questiono:
1 – Se você fosse presidente de uma grande empresa de produção de software, em qual dos países do BRIC você investiria para estabelecer operações de offshore/outsourcing?
Contra fatos não há argumentos, eu investiria na Índia.
Eles falam inglês; ganham a metade quando comparado com os russos e com os brasileiros; possuem 151 empresas certificadas CMMI-5; formam 200 mil profissionais TI por ano; irão movimentar USD 112 bilhões até 2012; congregam cerca de 70% das operações de offshore do mundo e o principal produto indiano é software, devido a sua qualidade. A Índia é um país emergente assim, como a Rússia, o Brasil e a China. A taxa de crescimento indiana só perde para a chinesa.
2 –A liderança na produção de aeronaves e de automóveis, por parte do Brasil, não conta? O potencial produtivo na esfera energética não é um fator relevante para a tomada de decisão?
Neste contexto não. Claro que não podemos desprezar tais índices. Porém na cadeia produtiva, o setor agrícola é o que possui menor valor agregado. As aeronaves e os automóveis não possuem relevância direta na produção de software. A única vantagem brasileira e o seu sistema bancário financeiro e capacidade criativa de seus programadores. Para sanar esse problema, eu, enquanto empresa investidora, importo-os facilmente ou instalo uma pequena subsidiária no Brasil.
Fica o recado para todos: MEXAM-SE...
José Augusto é Tecnólogo em Processamento de Dados (Fundação Educacional do Município de Assis). Mestre em Ciência da Computação (Universidade Federal de São Carlos). Doutor em Engenharia de Produção (Universidade de São Paulo). Atualmente ministra as disciplinas de Engenharia de Software na Fundação Educacional do Município de Assis e na Faculdade de Tecnologia de Ourinhos. José Augusto possui várias publicações nacionais e internacionais que lidam com a criação e organização de processo de produção de software e trabalha, ativamente, com consultorias para empresas de desenvolvimento de software. Mantém um blog sobre Engenharia de Software.
Categories : [ mercado ]
May 05 2009, 05:30:11 PM EDT Permalink
6 Comments
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Comments
1 - Os dados revelam os fatos sim professor. Mas acho que temos que pensar também nos aspectos culturais de cada nação envolvida. Às vezes pode parecer óbvio a decisão pelo mais barato, pela quantidade, pelo CMMI enfim...
Acho que mesclar a produção de software entre tais países, os resultados podem ser mais interessantes do que fazer uma aposta única.
2 - "capacidade criativa de seus programadores" isso sim é relevante e faz a diferença, mesmo pagando mais por profissional.
Mexer-se sempre!!
Parabéns pelo post.
Posted by Argemiro Lima on May 05 2009, 03:30:34 PM EDT Website:
http://www.mirolima.com
Realmente o Brasil mostra seu poderio na produção de commodities, porém temos um longo caminho para percorrer na formação de mão de obra qualificada.
Destes 17 mil formados por ano, ouso dizer que mais que a metade não se encontra preparado para o mercado de trabalho, em muitas universidades existe muito a ser melhorado. Como? Isso é assunto para muiiiitos posts aqui! Vamos discutir!
Como o Miro bem lembrou, a capacidade de criação dos profissionais não é analisada, e isto é muito importante. Trabalhando em projetos internacionais, converso muito com estrangeiros, e em geral, eles preferem trabalhar com brasileiros. Na semana que vem publicarei um testemunho aqui de uma gerente de projetos americana sobre o tema! Não percam!
Guto, parabéns pelo post!
Aproveitando, leitores, o blog é NOSSO! Se quiserem publicar algo relevante para o meio acadêmico aqui, estaremos de portas abertas... ou melhor, de páginas abertas.
Posted by Juliano on May 05 2009, 03:40:17 PM EDT Website:
http://jmmwrite.wordpress.com
Inicialmente eu também investiria na India, mas como trabalho com outsourcing desde 2004 tenho alguns pontos para levantar. No projeto que atuo atualmente, em 2 anos tivemos 100% de turnover em recurso vindo da India. Ou seja, se seu projeto precisa de profissionais por muito tempo, esse é um ponto para se pensar. Realmente é difícil para o Indiano pensar em fazer carreira numa empresa, quando se tem grandes empresas todo o dia oferecendo propostas melhores de alocação.
Quanto ao inglês, realmente acho que a India está na frente de todos os demais BRICs, embora muita pessoas ainda falem que o "sotaque" Indiano não é legal. Perguntei para um Americano, o que eles acham do sotaque de um brasileiro,russo ou chinês falando inglês. Na verdade o Indiano já está dentro da cadeia de offshore a muito tempo, é muito comum vermos gerentes, diretores e presidentes de empresas que vem da India, na minha opinião os Americanos já se acostumaram com o sotaque Indiano, e culturalmente isso ajuda ainda mais na transferência de serviços para a India. Outro ponto, os Indianos iniciam sua carreira Universitária falando inglês, em todas as Universidades o idioma padrão é o inglês.
Uma coisa que percebo nitidamente é que um profissional que trabalham em um projeto de outsourcing, tem que possuir habilidade a mais do que um profissional que trabalha em um projeto nacional. Ele tem que saber se comportar em um ambiente multicultural, onde uma simples frase ou gesto fazem um grande diferença. Mas não vejo que essa diferença seja favorecida por meios de salários ou benefícios para o profissional que trabalha em outsourcing. Se não existe uma compensação, o que faz pensar que um profissional prefira trabalhar em um projeto internacional do que um nacional. É comum eu escutar aqui em São Paulo, onde trabalho e ministro cursos meus alunos e colegas comentarem, se eu vou ganhar a mesma coisa, prefiro trabalhar em projetos nacionais do que aguentar os "gringos". Pior, as vezes se ganha mais em trabalhar em projeto nacionais do que internacionais.
Isso não acontece na India, quando converso com Indianos a maioria diz que projetos nacionais são muito poucos na India com rara exceções. Mas aqui no Brasil, nosso mercado interno é aquecido.
Hoje vejo as empresas mais preocupadas em treinar profissionais recém formados, do que saber como anda a motivação dos seus profissionais interno. Vejo mais preocupação de empresas procurando profissionais que saibam inglês, do que profissionais que tenham entendimento no aspecto multicultual que envolve um projeto de outsourcing.
Posted by Kleber Carvalho on May 05 2009, 04:48:09 PM EDT Website:
http://www.KleberCarvalho.com
O Juliano escreveu "Destes 17 mil formados por ano, ouso dizer que mais que a metade não se encontra preparado para o mercado de trabalho, em muitas universidades existe muito a ser melhorado".
Outro ponto a ser levado é que irão faltar profissionais na area técnica cada vez mais. Vejo cada vez mais alunos recém formados indo para area administrativa e gerencial dentro de TI, porque o skill técnico demora anos para ser desenvolvido. E com a forte demanda por profissionais de TI, não é difícil um profissional com pouco experiência conseguir uma posição administrativa. Sem contar profissionais técnicos que se cansam de area técnica, de tanto estudar novas tecnologias que migram para a area administrativa também. Por isso eu digo, o profissional precisar amar o que faz, escolher uma profissão baseado em outra coisa que não seja amor, faz com que acontece isso que vemos no mercado de TI hoje. Profissionais despreparados e desmotivados.
Posted by Kleber Carvalho on May 05 2009, 05:08:00 PM EDT Website:
http://www.KleberCarvalho.com
Eu acredito que no Brasil o principal problema seja mesmo a deficiência na formação de profissionais. Para a área de TI, 17 mil formandos por ano é um número muito pequeno. Isso é bem menos da metade dos alunos que se matriculam. Sem falar também que nem todos que se formam atuam na área.
Posted by Tiago dos Santos on May 06 2009, 11:50:40 AM EDT Website:
http://perludum.blogspot.com
O Kleber levantou uma bola importantíssima e com toda a razão: Indianos mudam muito de empresa. Muito mais que os brasileiros.
Posted by Juliano on May 06 2009, 02:47:03 PM EDT Website:
http://jmmwrite.wordpress.com
Fonte:
http://www.ibm.com/developerworks/blogs/page/academicbr?entry=produzo_software_no_brasil_na
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MarioTeza - 06 May 2009