Mario Teza no Baguete: Em defesa da Procergs e do Rio Grande do Sul
Escrevo motivado pela entrevista do diretor da
PROCERGS Ronei Firrigolo concedida ao site Baguete.
Concordo com o entrevistado quando diz no final da entrevista que a privatização total da
PROCERGS vai acarretar "uma fuga das informações e conhecimento aprofundadeo do que seja esta essência estatal".
Já não posso dizer o mesmo sobre outros trechos. Comentarei alguns.
"tuas idéias não correspondem aos fatos
o tempo não pára
eu vejo um futuro repetir o passado
eu vejo um museu de grandes novidades
o tempo não pára."
Cazuza (1)
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Disse Ronei:
" Creio que nossa gestão (Governo Rigotto-Holfeldt) encontrou um cenário bastante dificil de ser encaminhado, pois a gestão Mazoni - e eu disse isto publicamente na época, atrasou a empresa em muitos aspectos. Na tentativa de impor um modelo de software livre, e apenas isto, não investiu na infra-estrutura, não investiu em treinamento nem gerenciou a empresa."
Minha contestação:
"Na tentativa de impor um modelo de software livre, e apenas isto,"
Não é verdade. Na gestão passada foi implantado o maior case mundial do servidor de banco de dados MS SQL-Server, segundo dados da época fornecidos pela Microsoft. Foi na Secretaria da Fazenda. Em nenhum momento foi imposto via decreto ou qualquer outro instrumento legal disponível o uso de software livre. Hoje em dia governadores do PMDB, PSDB, PFL, tem baixado decretos nesse sentido. Não foi o caso do Governador Olívio Dutra. Pelo contrário, a única lei da época foi aprovada pela maioria da Assembléia Legislativa que era oposição ao Governo Olívio e hoje base do Governo Rigotto.
"não investiu na infra-estrutura,"
Não é verdade. No início da gestão passada existiam 5 mil microcomputadores, 105 redes locais e quase dez mil terminais de vídeo, os chamados terminais obsoletos. Em janeiro de 2003 eram 35 mil microcomputadores, 800 redes locais e menos de mil terminais de vídeo. De 40 servidores para 390 servidores de rede. O Via-RS, que atendia 13 cidades, passou a atender 81 cidades. De oito mil usuários, passou para 40 mil usuários
Na gestão passada foi implantada a Rede RS, que permitiu modernizar sua infra-estrutura de telecomunicações e de transmissão de dados. Um investimento de R$ 12 milhões, a Rede RS tornou a comunicação de dados entre os órgãos da administração estadual sete vezes mais veloz, melhorando a prestação de serviço à população, com uma economia estimada de R$ 500 mil mensais. Com uma Sala de Controle dotada de tecnologia de gerenciamento, permitiu que uma equipe de 35 técnicos da
PROCERGS monitorem o funcionamento de milhares de computadores da rede do Governo. Em um ambiente moderno, equipado com telões, os técnicos podem detectar eventuais problemas em computadores no interior do Estado antes mesmo de os operadores locais perceberem as falhas, que serão corrigidas com mais rapidez.
A Rede RS possibilitou aos órgãos do Estado acesso às modernas tecnologias da informática, como Internet, Intranet, correio eletrônico, ferramentas de automação de escritório e outros serviços incompatíveis com a rede que está sendo substituída. Ao todo, a Rede RS possui 35
PoPs?, que são os pontos de presença nas cidades com as maiores concentrações de órgãos públicos, como Caxias do Sul, Pelotas, Santa Maria, Passo Fundo, Novo Hamburgo, Santo Ângelo e Uruguaiana, por exemplo, onde foram instalados roteadores, modems e racks, entre outros equipamentos. O Estado economizará R$ 500 mil por mês com esse novo modelo de rede em razão de compartilhamento de canal de comunicação pelos diversos órgãos públicos de uma mesma cidade, em vez de cada repartição usar um canal próprio nas suas transmissões de dados. Outras obras e serviços relacionados à Rede RS, como a rede metropolitana de fibra óptica.
Detalhe interessante:"Chineses querem consultoria da Procergs na área de Governo Eletrônico" segundo o site do Governo do Estado. A delegação chinesa visitou a
PROCERGS no dia 23/06/2004. Segundo o site do Governo do Estado: "Durante a visita à Procergs, a delegação chinesa conheceu alguns setores da empresa, dentre estes, a Sala de Controle da Rede RS e a Sala de Servidores." A foto que circulou em alguns jornais foi da sala de controle da Rede RS.
Ah! Quase esqueço, sala dos servidores também foi uma "obra" da gestão anterior. "não investiu em treinamento"
Não tenho disponivel os dados da época. Mas é fato os vários cursos (Extensão, pós) que fizemos com a UFRGS, UNISINOS e PUCRS. Intercâmbios com outros países (Japão por exemplo). Cursos de todo tipo foram ministrados na gestão anterior. Mas desafio que os números desta área sejam mostrados, por exemplo, para o Baguete e que venham a público. Aplaudirei publicamente a atual gestão da
PROCERGS se o investimento em treinamento for superior ao da gestão anterior.
"nem gerenciou a empresa."
Bem, neste quesito fica difícil comparar se não são apresentados dados concretos. Talvez a agressividade da resposta de Ronei tenha a ver com a dificuldade para responder à pergunta do Baguete: "Independentemente das sugestões do presidente da Federasul, o senhor há de convir que as decisões do Governo em relação a empresa colaboram para a tese. Primeiro um gestor que desconhecia a área e se escondeu da imprensa e do mercado. Depois, um administrador que já na posse afirmou ser sua maior missão convencer o próprio Estado da importância da Procergs. A maior parte das ações divulgadas até agora se referem a processos iniciados na gestão anterior, bastante polêmica, por sinal. Qual a sua avaliação da gestão atual?"
Ainda nesta resposta, podemos ler:
"O IPE não pagou a Procergs quatro anos nem um centavo na gestão Olivio e mesmo assim isso era considerado normal"
Como pode Ronei afirmar que era considerado normal o não pagamento do IPE? O não pagamento era um fato. A concordância da
PROCERGS é algo bem diferente. Éra público a crise do IPE. Um projeto da Gestão Olívio foi contestado pela maioria o posicionista na Assembléia Legislativa. O tema era e é polêmico. Basta olharmos o atual Governo que enfrenta vários questionamentos sobre a sua solução para o problema. Deixamos encaminhado ao final da gestão passada o pagamento dos serviços através de prédios que o IPE repassaria à
PROCERGS.
"A empresa é uma S.A. e, mesmo assim, dentre os indicadores que nos foram legados pela diretoria anterior não constava o lucro, por ser uma palavra proscrita. O programa de repasse aos funcionários de lucros e resultados foi extinto nesta toada. A avaliação de funcionários era considerada prática de coerção capital-trabalho ao invés de instrumento gerencial de gestão da eficiência. Isto não constrói uma empresa."
O Programa de Participação dos Lucros foi descontinuado porque foi implantado uma política salarial onde priorizamos conceder as reposições salariais, por menores que fossem, a alimentarmos a ilussão de um valor nomimal anual que nenhum(a) funcionário(a) incorporaria ao salário. A palavra lucro nunca foi um problema para a gestão anterior. O dificil num Estado em extrema dificuldade financeira é alcançá-lo. Nossa opção não foi direcionar a
PROCERGS para competir contra as empresas privadas da área. Em raras áreas competimos. Mesmo nessas, sempre procuramos parcerias para alimentar a cadeia produtiva local. Se a tese defendida por Ronei fosse válida, por que não está sendo aplicada agora na
PROCERGS? Certamente ele deve tê-la aplicada na sua empresa para seus funcionários quando a geria. Eu não disponho dessa informação. Mas no Governo do Estado a situação é bem mais complexa.
Ronei continua:
"Nós, por outro lado, implantamos a Bolsa Eletrônica de Compras, engavetada pela gestão passada. Foram colocados novos sistemas de armazenamento, fizemos upgrade em ambos os mainframes, com investimentos de vários milhões"
"Bolsa Eletrônica de Compras, engavetada ". Considerar "engavetada" um debate que acontecia entre os diversos órgãos do Governo não me parece uma boa postura. A
PROCERGS nunca impôs sua opinião ao Banrisul ou Secretaria dao Fazenda, por exemplo. Um assunto desses necessita um tempo de maturação. Fizemos nossa parte. Preparamos o terreno para que a próxima gestão, fosse qual fosse, pudesse prosseguir. Talvez a colocação adequada fosse: " conseguimos concluir o que a gestão passada começou, a Bolsa Eletrônica de Compras".
"novos sistemas de armazenamento:
Na gestão passada foi adquirido o storage EMC. Isso permitu que a
PROCERGS saísse de 900 giga, saltando para 32 terabytes de área de armazenamento, capacidade que nenhuma estatal estadual de informática possuia na época. Com certeza, dois anos depois, imagino que as necessidades de armazenamento do Governo aumentaram. Daí a não reconhecer o trabalho anterior vai uma grande distância.
"fizemos upgrade em ambos os mainframes, com investimentos de vários milhões"
Repete o contexto anterior. Fazer upgrade de hardware é o dia-a-dia de uma grande empresa de TI. O díficil é expandir serviços, usuários(as) simultâneos(as) e não investir em equipamentos. Zelosa para que a
PROCERGS não tivesse sobresaltos quando da troca de Governo, a gestão anterior fez um estudo profundo sobre sua estrutura do mainfraime. A conclusão foi por sua ampliação. Mas para que não fosse passada uma fatura para a nova gestão sem que fosse possível um decisão baseada nas prioridades de quem estava chegando, decidiu-se prolongar ao máximo o tempo de vida dos equipamentos da época até que a nova Diretoria tivesse condições de decidir. O estudo que me refiro foi conhecido como Grupo de Trabalho Bom Natal. Até hoje ele não foi contestado e suas recomendações adotadas.
Em duas respostas, Ronei completa seu pensamento sobre o tamanho da
PROCERGS que ele almeja:
" Creio que temos a missão de focar todos os recursos da empresa para sua atividade fim, qual seja a de ser uma central de inteligência em regras de negócio e não uma construtora de código ou data center, coisas que são commodities hoje no mercado. Funcionários assim focados e motivados por um programa de participação nos lucros, com autonomia gerada por um contrato de gestão, podem sim exercer um papel fundamental no desenvolvimento do Estado."
mais
"Em breve, o presidente Pacheco estará trazendo à comunidade o projeto
RedePro?, assim como outros, visando integrar a cadeia produtiva do Estado no processo de desenvolvimento de software da empresa, terceirizando tudo o que for possível."
e
"A Procergs deve ser o braço do Governo junto aos agentes econômicos - empresas, entidades, universidades e ONGs, gerando influência para trabalhar o seu poder de compra e os vetores de inovação para o caminho definido. As principais ações táticas, portanto, devem passar a ser executar funções de consultoria e modelagem das soluções, ser a central de inteligência em mercado e negócio (Governo), orquestrar o casamento entre a oferta e a demanda tecnológica , negociar a administração de contratos globais, manter a inteligência de negócio junto aos órgãos e definir os modelos de sub-contratação.
Deve ficar claro que conservar internamente o domínio sobre os dados vitais do Estado, além de auxiliar os órgãos deste a alinharem sua estratégia de TI com as prioridades de ação de cada um é crucial para o sucesso em longo prazo da ação da Procergs e do uso adequado da tecnologia em si no Rio Grande do Sul. A execução das atividades operacionais relacionadas ao desenvolvimento de aplicações, prestação de serviços técnicos, treinamento e um sem número de atividades técnicas demandadas pelos órgãos da administração estadual podem, portanto, passar para o âmbito da iniciativa privada, em especial pools de pequenas empresas, visando a indução da economia local, a criação de empregos e o próprio aumento da eficiência dos serviços, além de garantir a diversidade das alternativas tecnológicas a disposição do Estado.
"Minhas considerações:
Penso que essa estratégia levará a morte a
PROCERGS. Esse é o resultado da soma de duas ações: acabar com a maior parte da área de desenvolvimento ("A execução das atividades operacionais relacionadas ao desenvolvimento de aplicações"), somada a idéia de acabar com boa parte, para ser otimista, da área de operações ("prestação de serviços técnicos, treinamento e um sem número de atividades técnicas demandadas pelos órgãos da administração estadual").
Imaginar que pequenas empresas privadas vão absorver essas atividades é, no mínimo, uma aventura. Que pequena empresa privada tem lastro financeiro para suportar meses de atrasos nas faturas de pagamentos? A
PROCERGS tem essa condição porque, na pior hipétese, o Tesouro Estadual repassará o mínimo necessário para a Empresa continuar operando. Não será assim com as "pequenas empresas privadas".
A
PROCERGS é uma empresa reconhecida nacional e internacionalmente. Conseguiu se reposicionar no mercado de TI sem ofuscar as empresas privadas da área. Conseguiu estabelecer parcerias com suas congêneres estaduais e municipais. Tem destaque em diversas áreas, tanto Operacional, Desenvolvimento, Comercial ou Administrativa. Será um deserviço para o Estado do Rio Grande do Sul esse "esquartejamento" da empresa. Conhecia a
PROCERGS e muitos de seus funcionários quando participava do Sindicato de Trabalhadores de Processamento de Dados (SINDPPD-RS). Fui cedido do Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO) no segundo ano da gestão Olívio Dutra.
Assessorei a Diretoria e no final da gestão atuei como Vice-Presidente. Pode-se falar muitas coisas de Marcos Mazoni, Marcelo Branco, Clarice Coppetti, Paulo Weyne ou Claudio Dutra, diretores de então. Mas não é possivel deixar de reconhecer o esforço que fizeram em condições tão adversas para requalificar a
PROCERGS, atualizá-la tecnológicamente, recuperar a auto-estima técnica perdida quando da tentativa de privatização do Governo Antonio Britto.
Respeito a atual gestão como expressão da vontade da população gaúcha ao eleger o Governador Germano Rigotto. Essa mesma população julgará o seu governo. O Governador Rigotto se elegeu contestando acusações de que privatizaria estatais. A visão exposta por Ronei "esquarteja/privatiza" a
PROCERGS.
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(1) "O Tempo não para" Cazuza
(*)Brasileiro, natural de Porto Alegre, RS. É funcionário do SERPRO desde 1984. É membro do Comitê Gestor da Internet do Brasil e do Consortium of Free Software Developers and Users in Latin America and the Caribbean da UNESCO . Hoje é Gerente do Escritorio da DATAPREV no RS. Foi vice-presidente da
PROCERGS , na gestão Olívio Dutra. Foi fundador e membro do Projeto Software Livre do Rio Grande do Sul e do Projeto Software Livre Brasil . Foi fundador da ONG internacional Hypatia.
Fonte: Baguete -
http://www.baguete.com.br/coluna.php?nome=marioteza
http://www.softwarelivre.org/news/2676 Colunistas do PSL Brasil - Jul 05 2004, 12:48
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MarioTeza - 08 Jul 2004