BALANÇO DO PRIMEIRO ANO DO PROJETO SOFTWARE LIVRE RIO GRANDE DO SUL

“E quanto mais tudo seria sonhar com cantoria de milhões de bocas

Por tantas milhas de terra

E quanto se fizesse luta se saberia

Somos um bando e muitos outros

Somos um bando, um bando, um bando, um bando e muitos outros.”

Bebeto Alves

As Origens do Projeto Software Livre Rio Grande do Sul

O Projeto foi lançado no dia 30 de Julho de 1999, no auditório da PROCERGS, em Porto Alegre. Compareceram 40 pessoas, representando o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, a Secretaria de Ciência e Tecnologia, a Secretaria da Fazenda, o Banrisul Processamento de Dados (BPD), a Cia. de Processamento de Dados de Porto Alegre (PROCEMPA), DATAPREV/RS, Serviço Federal de Processamento de Dados - Serpro/RS (Sunac, Sunat e Supst), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Instituto de Informática e Matemática, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), Centro Franciscano Universitario de Santa Maria, Fundação de Rio Grande (FURG), Fundação de Ciência e Tecnologia (FUNDATEC), Associação Gaúcha de Usuários de Linux/Unix (TCHE LINUX), SUCESU/RS, ASSESPRO/RS, Sociedade Brasileira de Computação/RS (SBC), BRISA, Senac Informática/RS, Correio Developers e Core News (São Paulo). Aprovamos a constituição de um grande movimento, não só dos governos, mas do conjunto da sociedade, já que a adoção de software livres exige uma nova postura dos profissionais da área, dos usuários, das instituições de ensino e das empresas públicas e privadas. Para tal definimos a constituição de uma rede de laboratórios nas empresas e universidades para o estudo do GNU/Linux e demais Software Livre; a estruturação de um curso para Suporte para GNU/Linux e demais Software Livre; a criação de um Consórcio Editorial afim de publicar livros, manuais, apostilas sobre GNU/Linux e demais Software Livre e a realização de um grande evento em novembro de 1999 para a divulgação massiva do GNU/Linux e demais Software Livre.

Os Primeiros Resultados

Passados oito meses podemos fazer uma avaliação positiva do Projeto: Sua coordenação conseguiu funcionar com regularidade. Foi realizado o curso de suporte com dois módulos. Consórcio Editorial lançou dois títulos, Anais do WhorkShop? Software Livre 2000, edição com 3.000 exemplares e o Projeto GNU, de Richard Stallman, tradução patrocinada pelo gabinete do deputado Elvino Bohn Gass (PT/RS). Os Laboratórios estão sendo montados nas empresas como os do BANRISUL, PROCERGS, PROCEMPA,PUCRS, ULBRA, FEVALE, UNIVATES, UFRGS e UNISINOS. grande Evento foi realizado nos dias 4 e 5 de maio deste ano, com a participação de mais de 2.200 pessoas, cujo balanço faremos em separado. Debate da legislação brasileira, dando origem ao projeto de lei número 2669 do deputado federal Walter Pinheiro (PT-Bahia), que trata do uso de softwares livre nas administrações públicas, estatais, autarquias, etc. Iniciativa que se reproduz na Assembléia Legislativa gaúcha através do deputado Elvino Bon Gass (PT-RS) e na Câmara Municipal de Porto Alegre, através da vereadora Helena Bonuma (PT-POA). A Coordenação do Projeto está sendo ampliada com novas adesões, de empresas, universidades, poderes públicos, ONGs, etc.

Primeiro Fórum Internacional Software Livre 2000: Um Marco no Brasil

Definido originalmente para ser realizado em novembro de 1999, o nosso grande Evento aconteceu nos dias 04 e 05 de maio de 2000. Mais de 2.120 pessoas passaram por ele. Foram vinte e uma atividades, entre palestras, mini-cursos e workshops. Definimos que queríamos um evento diferente daqueles realizados no Brasil ou no exterior. A regra geral é a realização de grandes feiras comerciais com algumas palestras temáticas ou chamarizes. Decidimos arriscar alto. Nosso evento seria filosófico, nada seria vendido. Quem viesse seria pela idéia do debate, da troca de conhecimento. Foi uma decisão que preocupava a todos(as) pois não tínhamos um parâmetro semelhante. A Segunda grande definição foi o preço do ingresso. Devia estar dentro do espírito do evento. Quase grátis para que o maior número de pessoas pudesse comparecer, mas não totalmente gratuito para que ninguém se sentisse descompromissado com o movimento que pretendamos apoiar. Daí surgiram os R$ 10,00. A Comissão de Temário trabalhou para que temas atuais no Brasil e no Mundo constassem da pauta. Ao mesmo tempo, tentou distribuir os assuntos de tal forma que um maior número de pessoas pudessem acompanhar. As universidades ligadas ao projeto organizaram o Workshop Software Livre 2000, com aprovação de 19 trabalhos dos 28 inscritos. Foram trabalhos do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Norte e Paraná. Eles estão publicados nos Anais Workshop Software Livre. Conseguimos realizar o Server Day, uma demonstração de como migrar uma rede MS-Windows NT para GNU/Linux. E, por fim, o Workshop para desenvolvimento de aplicações em interface gráfica, com Alfredo Kojima. Outra atividade muito importante foi o III ENAPIP, Encontro Nacional de Profissional de Informática Pública, promovido pela FENADADOS e sindicatos de trabalhadores de informática do Brasil, em conjunto com as empresas, PRODABEL,PROCEMPA, PROCERGS, PRODEGEM. Todos os eventos paralelos estouraram as lotações das salas em se realizavam. A abertura contou com a apresentação da Orquestra de Flauta da Escola Municipal Heitor Vila Lobos, composta por 120 alunos da Vila Mapa de Porto Alegre. Transmitimos o Evento ao vivo pela Internet convencional, além de inaugurarmos a Internet II com o consórcio METROPOA, atingindo O Fórum pôde ser acompanhado pela Internet convencional, através de serviços disponibilizados pelos servidores Via-RS e PortoWeb?. A outra forma de acompanhar o evento, foi através do consórcio METROPOA, a Internet II, com o uso de telões instalados em três auditórios espalhados no Campus do Vale da UFRGS, na PUC/RS e na Unisinos, uma iniciativa de cada instituição vinculada ao Projeto Metropoa. A Procempa (Companhia de Processamento de Dados do Município de Porto Alegre) também disponibilizou a transmissão na sua rede local e para a rede da Prefeitura de Porto Alegre.

O Evento contado pelos números

Contamos com a presença de inscritos das seguintes cidades do Rio Grande do Sul: Agudo, Alegrete, Alvorada, Arroio do Meio, Augusto Pestana, Bagé, Cachoeirinha, Campo Bom, Candiota, Canoas, Canela, Canguçú, Carazinho, Catuípe, Caxias do Sul, Charqueadas, Coronel Bicaco, Crissiumal, Cruz Alta, Cruzeiro do Sul, Dois Irmãos, Eldorado do Sul, Encantado, Estãncia Velha, Esteio, Estância Velha, Farroupilha, Faxinal do Soturno, Frederico Wesphalen, Gravataí, Guaíba, Horizontina, Igrejinha, Ijuí, Imbé, Ivoti, Jaguari, Lajeado, Montenegro, Não-Me-Toque, Nova Bassano, Nova Santa Rita, Novo Hamburgo, Palmeira das Missões, Panambi, Passo Fundo, Pejuçara, Pelotas, Porto Alegre, Rio Grande, Rio Pardo, Sananduva, Santa Maria, Santa Bárbara do Sul, Santa Cruz do Sul, Santo Ângelo, Santo Cristo, São Francisco de Assis, São Jerônimo, São Leopoldo, São Sebastião do Caí, São Vicente do Sul, São Luís Gonzaga, Sapucaia do Sul, Sarandi, Santa Bárbara do Sul, Santa Vitória do Palmar, Tapejara, Terra de Areia, Teutônia, Três de Maio, Venâncio Aires, Veranópolis, Viamão. De outros Estados do Brasil estiveram representados: Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba, Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina. Representativa também foi a participação de estudantes e professores(as)das Universidades abaixo: Faculdade da Ciência de Computação de Caratinga (MG),Faculdade Rui Barbosa (BA), Faculdades Maringá (PR), Faculdades Rio-Grandense (RS), Faculdade Três de Maio – FATREM (RS), FEEVALE (RS), FFFCMPA (Fundação Federal Faculdade Católica do Município de Porto Alegre/RS), Unijuí (RS), Universidade Regional de Blumenau (SC), UFRGS (Com a participação de diversas faculdades), USP (SP), UCEPEL (Universidade Católica de Pelotas), UCS (Universidade de Caxias do Sul), UFPA (Universidade Federal do Pará), UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), Ulbra (Universidade Luterana do Brasil), Uni La Sale (RS), Unicamp (Universidade de Campinas), Unisinos (RS), Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), Univale (SC), Univates (RS), PUCRS, Universidade de Alfenas (MG), Universidade de Brasília, Universidade de Cruz Alta, Universidade Estácio de Sá (RJ), Urcamp (Universidade da Região da Campanha)

O Evento contado pela emoção

“Chegamos em Poa e vamos direto para o hotel, encontro Djalma Valois (amigo do CIPSGA, do Rio de Janeiro), jogamos alguma conversa fora e vou dormir, ansioso pelo dia seguinte. Olhando para o teto antes de dormir me dou conta da importância do que vou tomar parte, este evento é inédito no Brasil, e não tenho certeza de ter ouvido falar de outro semelhante em outra parte do mundo. Um dos estados de nosso país está organizando um evento, reunindo pessoas importantes no Brasil e de outras partes do mundo, demonstrando apoio ao movimento do Software Livre. Este evento é inédito por ser o primeiro evento de computação que não gira em torno de "produtos" mas de uma filosofia que transcende qualquer razão de mercado, vamos falar do acesso livre à informação, de liberdade, de idéias e da implementação destas idéias sem interferências externas. É o poder público abraçando uma filosofia que reflete a transparência, o exercício da liberdade, o desenvolvimento e o aproveitamento do maior dom que os brasileiros possuem, a criatividade. É bom ver um estado fazer dentro de nossa área profissional o que é de se esperar que um estado faça em todas as áreas. Porque haveria de ser diferente com a informática, ciência de apoio para o desenvolvimento de todas as outras nos dias de hoje? A função do poder público é avaliar e incentivar o que traz benefícios para os cidadãos, estando acima de interesses comerciais, e isso era o que os organizadores deste evento se propuseram a promover. Mas chega de reflexões, chegamos ao salão de atos da UFRGS, minha palestra começa às nove horas, é a primeira palestra do evento, apesar do ato de abertura ser à tarde, na prática estarei inaugurando o evento e a visão imponente do salão de atos da UFRGS me faz ter um "frio na espinha" no momento em que passo pela porta. O salão parece ter capacidade para umas 1500 pessoas, ele vai lentamente enchendo até quase não haver mais lugares vagos quando começamos com uma apresentação de uma orquestra de flautas, composta por alunos de uma escola pública da periferia de Porto Alegre. A seleção de músicas apresentadas (Villa Lobos, Chiquinha Gonzaga, Vivaldi...) e a beleza da apresentação daquelas crianças fez com que os organizadores que estavam na primeira fila não se contivessem e dessem vazão à emoção acumulada em mais de um ano de planos, debates e suor para que aquilo tudo acontecesse. Tomado por este sentimento, fui convidado a integrar a mesa juntamente com Marcelo Branco, vice-presidente da Procergs e iniciei a palestra, maravilhado em ver tantas pessoas juntas participando, parte queria ver e ouvir confirmações de suas próprias convicções, parte queria saber do que tudo aquilo se tratava, e uma outra parte queria conhecer mais sobre uma filosofia aparentemente contrária a sua, estes, certamente uma "minoria esmagadora". Daí em diante entrei no automático e só acordei no fim. Agora ansioso por ver a palestra do Prof. Imre, que iria elaborar sobre a participação das universidades e sua função dentro do movimento do software livre. Se eu me esforcei em dizer que Linux é apenas uma parte do que chamamos de "Movimento de Software Livre" e que isso sim é uma coisa muito maior, o Prof. Imre nos lembrou que "Software Livre" é apenas uma parte de algo chamado "Informação Livre" por sua vez muito maior do que o Linux ou todo o Movimento do software livre juntos, a verdadeira revolução do final do século. Esta palestra foi, sem dúvida a melhor que assisti nos últimos tempos, porque me fez lembrar de coisas que eu ainda não sabia smile À tarde Richard M. Stallman, um homem polêmico. Muitas pessoas dentro do próprio movimento do Software Livre o contestam pelo seu radicalismo em prol da filosofia GNU. Eu me lembro quando no começo da organização do evento eu disse, "Se vocês querem falar de liberdade de software chamem o Stallman". Stallman é sim um radical, como a maioria dos grandes líderes da humanidade. Para o bem ou para o mal, os grandes líderes tinham ideais e os viviam ao pé da letra para servirem de exemplo para seus seguidores. Não adianta nada pregar a liberdade de software e enviar e-mails dizendo "Software proprietário é ruim" a partir de um cliente de e-mail "Outlook Express" ou "Netscape". Um líder não pode demonstrar dúvida quanto a aquilo que defende. Este é Richard Stallman. Richard Stallman contou a história do movimento do software livre e falou de uma maneira tão cativante que duvido que alguém tenha tido coragem de falar "Linux" sem antes pronunciar "GNU" após sua palestra, receoso por desmerecer o trabalho de um sem número de pessoas que desenvolveram o sistema GNU. Os módulos e programas auxiliares do sistema GNU integrados ao kernel "Linux" compõe o sistema livre completo que muitas pessoas conhecem simplesmente por "Linux", mas que na visão de Stallman (e eu concordo com ele) deveria ser chamado "GNU/Linux". Fim do dia, fomos a um jantar de confraternização no palácio do governo que reuniu todo o pessoal da organização, o governador e muitas outras pessoas. O governador foi unanimidade no quesito simpatia, ouvia a todos, falava com todos, posava para fotos com o pessoal do evento, e mostrava conhecimento da causa que defendíamos ali, não se espera que um político tenha este nível de entendimento de algo tão técnico, o que demonstra que ele havia sido muito bem assessorado quanto a este assunto.”

O Evento dissecado

As vezes os(as) melhores críticos(as) são os(as) organizadores(as) de uma atividade. Parece ser o caso de nossa Coordenação. A seguir vamos relacionar sucintamente algum pontos para uma correção, se for possível, no Segundo Fórum Internacional:

a – Demora do boleto bancário para as inscrições;

b – Incapacidade de responder a caixa postal do evento;

c – Demora na divulgação do telefone da agência do evento;

d – Não divulgação com antecedência do Server-day e Workshop do Kojima;

e – Faltou processo de inscrição prévia para os temas do evento;

f - Divulgação com pouco prazo para o credenciamento prévio;

g – Engarrafamento de pessoas no ato de credenciamento do dia, com muitas filas;

h – Dificuldade de identificar o pagamento dos inscritos;

i - E-mail dos inscritos algumas vezes geraram confusão entre os inscritos;

j - Atualizações na página do evento não foram divulgadas para os inscritos;

k – A página do evento era pesada ao carregar;

l – Alguns palestrantes não enviaram currículos e palestras com antecedência;

m – Grandes empresas só confirmaram participação no dia do evento;

n – Transmissão em tempo real só foi divulgada no dia;

o – Show na abertura oficial não se viabilizou;

p – Orçamento foi superior a receita dos patrocínios;

q – Painel de encerramento esvaziado;

r- dias da semana e horário das principais palestras foram péssimos para cobertura da imprensa;

O Evento plantando sementes

No final do Evento, o Governo do Estado e a Prefeitura de Porto Alegre assinaram um Protocolo de Intenções para a instalação da Unidade de Desenvolvimento em Softwares Livres no Condomínio de Empresas de Eletrônica e Informática do 4º distrito, em Porto Alegre. O secretário de Produção, Indústria e Comércio de Porto Alegre, Milton Pantaleão, destacou que o objetivo é construir um projeto alternativo de desenvolvimento econômico, contrário ao monopólio existente hoje. O Protocolo de Intenções foi assinado pelo presidente da PROCERGS, Marcos Mazoni, representando o Governo do Estado; pelo prefeito de Porto Alegre, Raul Pont, e pelo secretário de Produção, Indústria e Comércio de Porto Alegre, Milton Pantaleão. Também foi anunciada a publicação no dia 30 de maio de edital da IETEC (Incubadora Empresarial Tecnológica) para a incubação de sete projetos dirigidos à pesquisa e desenvolvimento de Softwares Livres. A IETEC já está cadastrando as pessoas interessadas no processo de seleção pelo site da Prefeitura de Porto Alegre http://www.portoalegre-rs.gov.br Outra iniciativa apresentado no encerramento pelo deputado federal Walter Pinheiro (PT-BA) foi o lançamento da Campanha de Apoio aos Projetos de Lei que incentivam o uso de Software Livres em administrações públicas. “O Fórum abriu a perspectiva para romper a cultura do monopólio e dos ciclos fechados”, afirmou Pinheiro. Ele reforçou que o Governo Federal gastou cerca de R$ 120 milhões no ano passado apenas com software proprietários. Se o governo adotasse a lei agora, neste ano poderia ser economizado R$ 80 milhões em compra de software. O deputado convocou todos os participantes a pressionarem a Câmara do Deputados, através de seus representantes, para que o projeto de lei de sua autoria possa ser discutido e aprovado pelos deputados.

-- MarioTeza - 22 Sep 2004

Topic revision: r2 - 22 Sep 2004 - 16:21:10 - MarioTeza
 
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