Projeto Anheteguá:
Softwares Livres para as Redes de Economia Solidária!

Sumário

Apresentação

A expansão da economia solidária - ES no Brasil tem sido notável nos últimos dez anos. Motivada por vários fatores, como a crise estrutural e as práticas da economia popular, a ES coloca-se como um projeto econômico diferente do capitalista, onde os meios de produção são dos trabalhadores (as) e as relações de trabalho são permeadas pela solidariedade. Desde a década de 90, no Brasil, os atores da ES vêm se articulando e se organizando em espaços regionais de atuação. No entanto, foi no primeiro Fórum Social Mundial (Porto Alegre/RS, 2001), que trabalhadores(as), ONGs, movimentos sociais e representantes do poder público formaram o Grupo de Trabalho Brasileiro da Economia Solidária (GT Brasileiro), reunindo e aproximando entidades nacionais ligadas à Economia Solidária, até que foi criado o Fórum Brasileiro de Economia Solidária - FBES em 2003. O FBES (e os Fóruns Estaduais) estruturam-se de forma a garantir a articulação entre três segmentos do movimento da ES: empreendimentos solidários, entidades de assessoria e fomento, e gestores públicos.

A organização destes três segmentos tem buscado superar as distâncias territoriais, no esforço de favorecer a formação de cadeias produtivas entre empreendimentos da ES, a criação de políticas públicas para o setor, espaços de comercialização e formação, além de contribuir para o fortalecimento da identidade da ES, tanto para dentro de cada setor como para o reconhecimento desta pela sociedade. Segundo dados parciais do mapeamento realizado pela Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego em parceria com o FBES em 2005, há hoje no Brasil aproximadamente 14.900 empreendimentos solidários, envolvendo mais de 1.200.000 (um milhão e duzentos mil) trabalhadores e trabalhadoras associados(as), sem contabilizar suas respectivas famílias. Desde a criação do FBES em 2003 e da constituição dos Fóruns Estaduais entre 2003 e 2005, tem sido muito rápido o aumento dos empreendimentos solidários envolvidos ativamente dentro do movimento: há praticamente 1.900 empreendimentos solidários envolvendo aproximadamente 142.000 pessoas de maneira direta em fóruns e redes estaduais da ES.

De forma paralela à esse contexto, o espírito do desenvolvimento colaborativo, baseado em um fluxo livre sobre o conhecimento, permitiu também o desenvolvimento das principais ferramentas e tecnologias da Internet, bem como, acelerou a estruturação e disseminação da rede web, levando também ao ciberespaço a prática do compartilhamento (do código fonte dos softwares) e a liberdade para a sua alteração e para a distribuição das novas tecnologias. Assim, esse espírito de colaboração que foi materializado por Richard Stallman, em 1984, por meio de um movimento internacional em defesa dos softwares livres e do compartilhamento do conhecimento, tornou-se, além de um movimento político de escala mundial, uma fonte geradora de tecnologias de alta qualidade, segurança e acessibilidade.

Em um dos principais sites que registram os projetos de software livre (o source forge.2) pode-se ter acesso à mais de 99.107 (noventa e novo mil e cento e sete) projetos colaborativos, envolvendo 1.056.568 desenvolvedores registrados com um crescimento contínuo e acelerado. No entanto, além da própria exclusão digital que

atinge a maioria da população mundial, por não ser uma tecnologia distribuída pelo mercado capitalista e difundida pela mídia oficial, poucos indíduos tem tido acesso à esse conhecimento técnico e livre. Afinal, como afirmou o próprio hacker Eric Raymond: "quem pensaria mesmo há cinco anos atrás que um sistema operacional de classe mundial poderia surgir como que por mágica pelo tempo livre de milhares de colaboradores espalhados por todo o planeta, conectado somente pelos tênues cordões da Internet?"

Dessa forma, a integração dos movimentos de software livre e de ES por meio de projetos em comum aparece como uma tendência promissora para ambos, na medida em que os empreendimentos econômicos solidários passem a se fortalecer pela utilização cada vez maior de tecnologias livres; particularmente no campo da Tecnologia da Informação, os profissionais que atuam na área do software livre começam a organizar empreendimentos econômicos solidários que forneçam produtos, serviços e suporte em tecnologia da informação ao conjunto de organizações da ES.

Essa sinergia permitirá consolidar os avanços percebidos em ambos os movimentos, bem como desencadear novas oportunidades de crescimento e expansão nesse setor, uma vez que a ES seria beneficiada com tecnologias adequadas para aprimorar o funcionamento de suas redes colaborativas, facilitando os fluxos de produção, comercialização e consumo solidários. Por outro lado, iniciativas empresariais solidárias na área de desenvolvimento, produção e difusão de softwares livres poderiam se propagar no atendimento das demandas de tecnologia da informação peculiares a essas redes e empreendimentos da ES.

Há, portanto, um movimento em expansão da economia solidária e do software livre que muito tem a se dinamizar pela apropriação, desenvolvimento, emprego e difusão do software livre na economia solidária, bem como, pela organização sustentável de empreendimentos solidários voltados, especificamente, ao atendimento de demandas na área de tecnologia da informação no campo da ES.


Justificativa

Para que a economia solidária possa de fato se tornar uma alternativa ao sistema econômico atualmente vigente, muitos são os desafios. Não basta haver milhares de empreendimentos solidários pelo país, se estes estão isolados e acabam consumindo e vendendo produtos a empresas convencionais capitalistas, que exploram o trabalho e persistem com o círculo vicioso de acumulação de dinheiro, aumentando o abismo entre os abastardos e os que nada têm, ou pior, no caso das multinacionais, deixando sangrar nossos recursos para além-mar.

Neste sentido, um dos principais desafios do movimento da economia solidária é a constituição de redes solidárias de produção, comercialização e consumo, que favoreçam o desenvolvimento local numa perspectiva de distribuição de renda, e mais que isso, torne-se uma alternativa real de organização econômica no país, fundada não na competição desvairada e no acúmulo de capital, mas sim na vida, no bem-estar, na cooperação e autonomia dos trabalhadores(as). A Rede Brasileira de Socioeconomia

Solidária, uma das redes nacionais protagonistas da criação do FBES, tem como uma de suas metas ser justamente um espaço de estabelecimento de fluxos concretos entre produtores e consumidores na perspectiva de redes. Além disso, foi criado o Grupo de Trabalho Nacional de Produção, Comercialização e Consumo Ético e Solidário, também com este objetivo, que está se encaminhando para a constituição de um Sistema Nacional de Comércio Ético e Solidário.

Mas a organização e fortalecimento político do movimento não basta para que as redes solidárias se estabeleçam: são necessárias ferramentas e tecnologias que potencializem a constituição destas redes e a integração entre elas, além de um um sistema de dados que permita a visualização das possibilidades de compras e prestação de serviços entre empreendimentos solidários junto com seus produtos e serviços, para todo tipo de consumidor. Para tanto, como diz o ditado popular temos "a faca e o queijo na mão". Isto porque, por um lado, foi concluído o Mapeamento Nacional dos Empreendimentos de ES, e estes dados poderão ser disponibilizados a sistemas nacionais, regionais ou estaduais de acordo com Termo de Referência publicado no início deste ano, em que é autorizada a publicação de contato, localização, produtos, serviços, e os insumos necessários dos empreendimentos, para a elaboração de catálogos e sistemas de organização de redes solidárias. Além disso, durante a evolução do movimento de ES, com as Redes de Colaboração Solidárias, a Rede Brasileira de Socioeconomia Solidária e o GT de Produção, Comercialização e Consumo Ético e Solidário, foi sendo desenvolvido todo um conhecimento sobre a constituição de redes e fluxos solidários, e um levantamento das principais ferramentas necessárias para potencializar estes processos. E, por fim, existem ainda na Internet uma gama de softwares livres de alta qualidade que podem ser utilizados e adaptados a necessedades e especificidades dos emprendimentos das assessorias e de toda a rede da ES.

Sendo assim, uma intenção central deste projeto é pontecializar a relação entre os dados do mapeamento realizado e toda a experiência desenvolvida na história do movimento da ES. Estes dois elementos, se integrando à filosofia do Software Livre para o desenvolvimento de ferramentas tecnológicas em rede, a partir de sistemas colaborativos de trabalho, criam as condições tecnológicas necessárias para a construção de uma rede nacional de ES no Brasil.

3. Objetivos

3.1. Objetivo Geral

Contribuir para a construção de uma rede nacional de Economia Solidária no Brasil, por meio do desenvolvimento de uma base tecnológica livre e autônoma, que permita o fortalecimento e independência deste setor como uma estratégia sustentável para a geração de trabalho e renda no país.

3.2. Objetivos Específicos

  1. Desenvolver um software (sistema) livre para ambientes online e offline que, além de permitir um processo de busca por produtos e serviços solidários, que posibilite a formação e o fortalecimento de cadeias produtivas, redes de pro-consumidoras/es e espaços de comunicação entre os empreendimentos solidários, organizações de assessorias e cidadãos comuns de todas as regiões do Brasil.
  2. Desenvolver uma distribuição livre do sistema operacinal GNU/Linux (CDLivre da Economia Solidáaria) que atenda as especificidades e demandas tecnológicas dos empreendimentos solidários e organizações de assessorias no país e, ao mesmo tempo, possibilite que tais organizações que não tenham acesso à Internet, possam formar cadeias produtivas e redes de articulação por meio do acesso às informações do Mapeamento Nacional de empreendimentos.

4. Metodologia e Desenvolvimento do Projeto

4.1 Desenvolvimento do Sistema de Integração Nacional da Rede de Economia Solidária

4.1.1. Sistema Online e Offline

Tendo em vista que muitos dos empreendimentos da Rede não têm acesso à Internet, é necessário que possa acessar a base de dados de empreendimentos em modo offline. Sendo assim, serão desenvolvidas duas versões do mesmo sistema: uma versão online, que contará com atualizações constantes por parte dos membros da Rede conectados à Internet; e uma versão offline, apenas com funcionalidades de busca de empreendimentos.

4.1.2. Módulos

Para facilitar o acompanhamento do processo de desenvolvimento, o sistema estará dividido em módulos. Os módulos serão desenvolvidos seqüencialmente em uma ordem definida a partir da interdependência das suas funcionalidades e prioridades do projeto. São listados abaixo os módulos que compõem o sistema, especificando as versões (offline e/ou online):

  1. Usuários/(Online) -
Módulo de gerenciamento de usuários (membros da rede) do sistema. Por gerenciamento entenda-se o cadastro, atualização, remoção, definição de perfis, busca, ativação/desativação, autorização e autenticação dos usuários do sistema.
  1. Empreendimentos/(Online) -
Módulo de gerenciamento, cadastro, atualização e remoção de empreendimentos solidários do sistema. Migração da base de dados dos empreendimentos existentes para a base de dados do sistema.
  1. Comunicação/(Online) -
Módulo de ferramentas de comunicação entre usuários e empreendimentos. Estão previstas as ferramentas: fóruns de discussão, mensagens entre os membros, e entre os membros e os empreendimentos.
  1. Conexões/(Online)
Módulo de inteligência coletiva. Serão adicionadas funcionalidades que permitam aos membros da rede contribuírem para a criação de conexões entre empreendimentos e membros através da atribuição de meta-informações sobre o conteúdo da base de dados. Dessa forma o sistema poderá "sugerir" possíveis articulações entre os empreendimentos e membros da rede.
  1. Busca/(Online-Offline) -
Módulo de busca de empreendimentos solidários na rede. Será possível realizar buscas a partir da combinação de diversos parâmetros como localização, atividade fim, membros, entre outros.
  1. Notícias-Conteúdo/(Online) -
Módulo de gerenciamento, cadastro, atualização, remoção de notícias e páginas "estáticas" do sistema. Esse módulo visa criar um espaço no sistema para divulgação das atividades dos empreendimentos solidários cadastrados.
  1. Documentação-Ajuda/(Online-Offline) -
Módulo com tutoriais para as tarefas mais comuns, assim como um mecanismo de ajuda integrado para auxiliar os usuários durante a utilização do sistema.

4.1.3. Ciclo de Desenvolvimento

A abordagem geral de desenvolvimento desse sistema será a Prototipagem Rápida. Nessa abordagem, no início do desenvolvimento de cada módulo serão produzidos, em um curto prazo, protótipos que serão validados e incrementados a partir do feedback constante do cliente. Dessa forma, o cliente estará sempre ciente dos resultados parciais do desenvolvimento do sistema, evitando que o resultado final do processo acabe não atendendo aos seus objetivos fundamentais. O processo de desenvolvimento será dividido nas seguintes etapas:

  1. Análise de Requisitos
  2. Projeto
  3. Implementação
  4. Testes
  5. Implantação

Na fase 1, Análise de Requisitos, serão levantadas todas informações sobre as necessidades do cliente em relação ao sistema a ser desenvolvido. Nessa fase, serão realizadas reuniões com discussões, entrevistas e brainstorming. O resultado final da Análise de Requisitos é um documento que especifica de forma objetiva o escopo geral do sistema.

A fase 2, Projeto, trata-se da redação do projeto do sistema onde conterá os objetivos gerais e específicos, funcionalidades, modelos conceituais, tecnologias a serem utilizadas, infra-estrutura necessária para execução do sistema, etc. Ao final dessa fase, o projeto deverá ser aprovado pelo cliente para que o sistema comece a ser implementado na fase 3.

As fases 3 e 4 serão realizadas ciclicamente para cada módulo. Com o Projeto (fase 2) definido, serão produzidos protótipos de interface que serão apresentados ao cliente no início do desenvolvimento de cada módulo. Após confirmação final do cliente, o módulo é implementado (atividade de programação) e entra em fase de testes sucessivos (fase 4). Ao final da fase 4, o módulo é considerado finalizado.

Além disso, será utilizada uma prática de lançamentos frequentes ("release soon, release often"), uma característica que contribui bastante para atrair contribuidores para um software livre. Essa prática consiste em lançar versões públicas a cada evolução, mesmo que pequena.

A Criação de Layout e Interface (fase 5) é concomitante às fases 3 e 4, sendo desenvolvida durante o processo de desenvolvimento e testes. Desta forma, teremos sempre um layout gráfico integrado ao processo de desenvolvimento, proporcionando o mais avançado em interfaces de usuário.

Na medida em que conjuntos complementares e auto-suficientes de módulos forem ficando prontos, essas versões parciais serão implantadas. (fase 6).


4.2. Desenvolvimento do CD Livre GNU/Linux da Rede de Economia Solidária

O CD Livre será uma distribuição GNU/Linux que terá um ambiente Desktop amigável e customizado para as necessidades dos empreendimentos solidários e entidades de assessoria. Um sistema operacional é o conjunto de programas básicos e utilitários que fazem seu computador funcionar. Uma distribuição é um sistema operacional baseado no GNU/Linux, com uma seleção de programas adequado ao seu público-alvo e ferramentas de administração próprias, exemplo: instalador de programas, gerenciamento do computador, entre outros. phone cover cases

Dessa forma, a proposta é de adaptar uma distribuição GNU/Linux já existente para as necessidades das organizações que atuam no movimento de ES.

4.2.1. Seleção de Programas

O primeiro processo para criação do CD Livre é a seleção dos principais programas livres que vão fazer parte deste conjunto. Além dos programas básicos que já compõem uma distribuição customizada como, por exemplo BrOffice.org (Suíte de aplicativos para escritório), Gimp (Editor livre profissional de imagens, similar ao proprietário Photoshop), Inkscape (Editor profissional de desenhos vetorial, similar ao Corel Draw!), este sistema operacional irá contar com os seguintes softwares livres:

  • Stoq - um programa livre de gestão comercial. Stoq é uma inovadora suíte de aplicativos para gestão de empreendimentos comerciais desenvolvida e mantida pela Async Open Source. O Stoq será uma importante ferramenta para as empresas autogestionárias, associações e cooperativas do comércio varejista, pois este programa contempla, por exemplo: emissão de vendas com respectiva impressão de cupom fiscal via ECF, impressão de cheques via ECF ou impressora de cheque, controle de estoque, contas a pagar e a receber, compras, apuração de impostos, controle de serviços, relatórios e outros recursos, destacando-se a integração com periféricos de apoio ao comércio.

  • GNUCash . Este é um software livre que permite o gerenciamento financeiro de pequenos empreendimentos_ como cooperativas e associações populares, utilizando as diferentes versões do GNU/Linux. Concebido para ser de fácil utilização, mas poderoso e flexível, este programa permitirá um empreendimento sistematizar e controlar o fluxo de caixa, contas bancárias, tributos, receitas e despesas. Tão rápido e intuitivo de utilizar como o registo de um "livro de cheques", este programa é baseado em princípios contabilísticos profissionais para fornecer relatórios precisos.

4.2.2. Personalização do Ambiente Gráfico

Outro passo importante do CD Livre é personalizar seu ambiente gráfico de modo a proporcionar fácil manuseio e produtividade a pessoas que nunca tiveram contato com o sistema. Colocando ícones mais intuitivos com nomes mais explicativos, por exemplo exibir "BrOffice.org Writer" acompanhado de "Editor de Textos". O ambiente também possuirá cores e imagens ligadas ao meio ambiente, incentivando a preservação do mesmo.

4.2.3. Empacotamento e repositório

O CD Livre será desenvolvido com base em outra distribuição GNU/Linux já existente, e a equipe fará o máximo para contribuir com o desenvolvimento dessa distribuição. Por exemplo, eventuais correções desenvolvidas serão aplicadas na distribuição original ao invés de serem incluídas diretamente no CD Livre. O mesmo acontecerá com novos pacotes a serem criados; tudo que for de interesse geral não será incluído diretamente no CD Livre.

O CD Livre terá um repositório para abrigar pacotes próprios que incluam customizações específicas do CD Livre, tais como gráficos em geral, configurações específicas e outros.

Contatos

Comentários e Sugestões

 
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pdfpdf CDLivre_da_EcoSol.pdf manage 978.2 K 22 Apr 2006 - 16:16 VicenteAguiar Apresentação da proposta do CDLivre da Economia Solidária
Topic revision: r9 - 22 Oct 2011 - 14:48:13 - DarrenSy
 
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