Matérias - Artesanato

(2003/09/23) Texto de Gabriela Gemignani no Jornal O Estado de São Paulo: http://txt.estado.com.br/suplementos/pain/2003/09/23/pain005.html

Terça-feira, 23 de setembro de 2003

A profissionalização do artesanato nacional

Alta do dólar fez com que peças brasileiras ganhassem lugar de destaque na decoração

Por GABRIELA GEMIGNANI

A valorização do produto nacional e a alta do dólar fizeram com que o artesanato brasileiro ganhasse posição de destaque no cenário atual. Antes relegado às lembrancinhas de turistas, do tipo "eu estive lá e lembrei-me de ti", hoje os trabalhos brasileiros ganham o exterior e, principalmente, o mercado interno.

"Estamos vivendo um momento feliz, os arquitetos e decoradores que antes não davam muito valor para as peças nacionais estão descobrindo que há muita coisa boa neste mercado, a custos bem menores que os importados", afirma o coordenador do Núcleo de Artesanato do Sebrae-SP, Roberto Mauro dos Santos.

Há três anos o Núcleo desenvolve um programa para a capacitação de artesãos no Estado de São Paulo. "Identificamos uma técnica comum usada por um grupo de artesãos em determinado município e damos todo o treinamento gerencial e comportamental, além de disponibilizar um designer para adequar as peças à necessidade do mercado, mas sem perder a tradição local", diz.

Para garantir a capacitação dos profissionais e qualidade dos produtos, foi criada a marca Arte que Vale, que indica que a região teve treinamento do Sebrae-SP. "Além de capacitar os artesãos, um dos principais objetivos é resgatar técnicas que se extinguiram ou estão desaparecendo", afirma Santos.

Uma dessas iniciativas ocorreu na zona rural de São Carlos, onde duas artesãs, Estela Regina Silva e Nelcy Bastos resgataram o panô ajour, técnica de bordado de origem européia introduzida na cidade pelos imigrantes italianos, e que utiliza juta desfiada e retalhos de pano.

Hoje são 46 grupos de artesãos, com média de 20 pessoas cada, que já conquistaram espaço em redes varejistas como C&C Casa e Construção, Tok Stok e Pão de Açúcar. "Há um ano estamos trabalhando com os artesãos capacitados pelo Sebrae-SP e fizemos algumas substituições de importados pelos produtos nacionais", afirma a gerente de compras da C&C Casa e Construção, Fernanda Canal.

Segundo ela, o artesanato paulista está sendo vendido em três lojas da rede, localizadas em áreas nobres de São Paulo. "São produtos voltados para as classes mais altas."

Opinião - Um dos principais objetivos do programa é conquistar os formadores de opinião do ramo, para alavancar ainda mais este mercado. "Recentemente fizemos uma exposição no Museu da Casa Brasileira, o que sem dúvida tem um grande valor."

Na feira Arte da Terra, realizada na semana passada em São Paulo, também houve a preocupação em mostrar as peças inseridas em ambientes decorados.

"Além disso, a rodada de negócios teve o objetivo principal de aproximar os artesãos dos lojistas", afirma Santos.O evento contou com a presença de 7 mil visitantes.

Setor - Segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, os 8,5 milhões de artesãos brasileiros movimentam cerca de R$ 28 bilhões ao ano, o equivalente a 2,8% do PIB.


Fonte: http://txt.estado.com.br/suplementos/pain/2003/09/23/pain006.html

Artesãs apostam em produtos exclusivos para conquistar mercado

Atividade que muitas vezes surge como alternativa ao desemprego, ganha sofisticação nas mãos de mulheres que não abrem mão da qualidade

Seja por uma brincadeira ou necessidade financeira, o fato é que cada vez mais brasileiros estão redescobrindo o artesanato como fonte de renda. O artesão solitário das cidades turísticas está dando lugar para um mercado profissional, em que é preciso cumprir prazos, saber gerenciar a produção e, principalmente, oferecer produtos de qualidade, isso tudo sem perder o valor artesanal e único de cada peça.

Há cinco anos a baiana Graça Nagao, que já tinha morado no Amazonas e no Espírito Santo, sempre acompanhando o trabalho do marido foi parar no interior de São Paulo, na cidade de Itapeva. Lá, tentou dar aulas de gastronomia, profissão na qual tem formação. "Mas não deu certo", conta ela.

Para "não ficar parada", Graça começou a fazer panos de prato como hobby. "Um dia resolvi, de brincadeira, fazer uma galinha em tecido. Uma amiga gostou e fez encomenda para presentear." O presente fez sucesso e logo ganhou as páginas de revistas especializadas.

As encomendas começaram a crescer e Graça teve de montar a Atelier Art, para dar conta do recado. Há dois anos a empresa começou a participar de feiras de presentes em São Paulo e de um estande de 7m2, o último evento teve um espaço de 35m2. "Foi em maio e já temos pedidos para o ano todo e a confirmação para mais duas feiras", diz Graça. A participação em eventos também rendeu clientes famosos como a Tok Stok.

"Há um ano e meio eles nos pediram para desenvolver duas peças exclusivas para crianças, fizemos um galo e uma galinha, e tivemos de passar por todas os testes do Inmetro e agora pediram mais duas", conta ela, com orgulho de dizer que nunca teve nenhuma reclamação de seus produtos vinda dos clientes da rede.

Novela - Dos 680 clientes de Graça, este deu uma alegria especial na semana passada. "Eu estava assistindo a novela Mulheres Apaixonadas e meu produto apareceu na cena da personagem Heloísa visitou o quarto do bebê de uma amiga. Eles focalizaram bastante a peça", diz Graça entusiasmada e satisfeita. "Foi uma surpresa muito boa, é como criar um filho e ver ele ser reconhecido sozinho", compara.

Com 22 funcionários, a soteropolitana faz questão de checar cada peça que é feita em seu atelier. "Sou muito exigente e acho que é por isso que os produtos fazem sucesso", diz. A preocupação em não se tornar uma indústria para não perder o valor artesanal das peças e manter a qualidade faz Graça até recusar pedidos de clientes importantes, como a Chopperia Pingüim, de Ribeirão Preto e a Sweet Pimenta, em São Paulo. "Somos procurados por oferecer produtos exclusivos, com tintas e tecidos diferenciados", diz.

Na última feira, Graça teve uma visita tentadora, mas não deixou suas convicções de lado. "Tivemos a visita de um grande armarinho da Rua 25 de Março, que queria arrematar nossa produção inteira, com pagamento a vista.

Mas tive de recusar, pois poderia ficar 'queimada' com meus clientes", afirma. Para o mês que vem ela prepara a inauguração de um show room em Itapeva. "Muitos clientes querem ver os produtos e eu não tinha um lugar para expor", conta ela.

Grupo - Há três anos o grupo Amarrio de Bariri, na região de Bauru, em São Paulo, se organizou para fazer parte do projeto do Sebrae-SP. "O objetivo foi fazer um resgate cultural de trabalhos em juta, tradicional da cidade", afirma a artesã e coordenadora do grupo, Carine Furlanetto Castanho.

Segundo ela, o grupo conta com 16 artesãs e vende seus produtos na rede C&C e Pão de Açúcar. "Uma das principais dificuldades no começo foi convencer os maridos das donas de casa de que era necessário que elas saíssem para fazer os cursos e trabalhar fora de casa", conta.

No começo, segundo ela, casa uma ajudava como podia, até vendendo pão caseiro para levantar fundos ao grupo. "Fomos amadurecendo com o tempo e conquistando espaço no País. Temos clientes no Sul, Minas Gerais e até na Amazônia."

Atelier e Art, (0--15) 521-1114, ou pelo site: www.atelierart.com.br. Amarrio de Bariri, (0--14) 3662-7978

-- TupiDaTaba - 14 Oct 2005

Topic revision: r2 - 23 Nov 2006 - 17:01:10 - LeandroSantos
 
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