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CoberturaWiki :: Software livre e código aberto: dois movimentos?

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rev 1  -  13 Apr 2007  -  RafaelEvangelista
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Material do palestrante (falta wikificar):

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Apresentação deriva da dissertação de mestrado de mesmo nome, defendida no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000349663

Software Livre x Open Source: dois movimentos?


Disputa sobre nomes: -movimento livre ou aberto? Linux ou GNU/Linux?

Isso confunde os iniciantes, mas essa disputa não é fortuita.


Optar por um nome é se colocar no mundo, é assumir um posicionamento.

Usar palavras diferentes é tomar posições diferentes. A opção por um nome ou por outro marca, para além de possíveis diferenças técnicas, a posição discursiva ocupada pelo sujeito em relação à história do movimento.


De acordo com Orlandi, “ao falarmos nos filiamos a redes de sentidos mas não aprendemos como fazê-lo, ficando ao sabor da ideologia e do inconsciente. Por que somos afetados por certos sentidos e não outros? Fica por conta da história e do acaso, do jogo da língua e do equívoco que constitui nossa relação com eles. Mas certamente o fazemos determinados por nossa relação com a língua e com a história, por nossa experiência simbólica e de mundo, através da ideologia.”

- Às vezes, dependendo do interlocutor ou da situação, um sujeito que usa a palavra software livre pode usar, sem planejar conscientemente, a palavra código aberto. Naquele momento, algo aponta a ele que aquela palavra será melhor aceita.


Embora tenha sido apontado por muitos de seus adversários como "coisa de comunista", como algo subversivo, o software livre/open source foi, gradulamente, sendo aceito por grandes corporações capitalistas. Acredito haver uma ligação entre o SL e os ideais de esquerda (ver cap 1), mas isso foi discursivamente transformado pelo open source.

O open source refundou o movimento, resignificando-o a partir de outras bases ideológicas.


Entre OS e SL as diferenças em termos legais são pequenas - embora não desprezíveis

O OS afirma que foram mudanças pragmáticas, que favoreceram a percepção de que o FOSS é algo comercializável, e não ideológicas


Não é verdade, a mudança foi sim ideológica. E não o abandono da ideologia (não se abandona ideologia, ela é algo inerente), mas a adesão a uma nova.

- Retomada da distinção produtor / consumidor

- Elogio do método bazar

- Metáfora do mundo natural: código na rede é código na selva, só sobrevive o melhor. O que tem condições de evoluir, a partir dos diversos olhos, crescem. Os ruins perecem.


Momentos fundantes da história:

1983-1985 - FSF, Manifesto GNU, GPL, copyleft

1991 - Linux - GNU pronto

1997-1998 - Catedral e o Bazar; OSI; "goodbye free software, hello open source" --> Eric Raymond e Bruce Perens


* Elogio ao método bazar

O método de desenvolvimento adotado por Linus está em A Catedral e o Bazar, livro escrito por Eric Raymond, em 1997. A obra é também uma alfinetada em Stallman, acusado de adotar uma postura centralizadora de desenvolvimento. A crítica de Raymond aparentemente é voltada ao modelo de desenvolvimento proprietário, mas também refere-se ao desenvolvimento GNU, dizendo que esses códigos são como se fossem catedrais, monumentos sólidos, construídos a partir de um grande planejamento central. Já o desenvolvimento adotado por Linus seria como um bazar, com uma dinâmica altamente descentralizada. Diz Raymond: “De fato, eu penso que a engenhosidade do Linus e a maior parte do que desenvolveu não foram a construção do kernel do Linux em si, mas sim a sua invenção do modelo de desenvolvimento do Linux. Quando eu expressei esta opinião na sua presença uma vez, ele sorriu e calmamente repetiu algo que freqüentemente diz: ``Sou basicamente uma pessoa muito preguiçosa que gosta de ganhar crédito por coisas que outras pessoas realmente fazem.''


* Elogio a Linus, críticas a Stallman

- Incensar Linus não é só elogiar seu método. É reputar a grande a contribuição a outro que não Stallman.

Stallman sempre foi uma figura politicamente muito atuante, não apenas no campo da informática. Mais velho, tendo vivido toda a experiência da luta pelos direitos civis nos EUA, Stallman carrega em sua fala críticas não muito ao gosto das empresas. Em seu site pessoal, por exemplo, ao lado de artigos em favor do software livre, encontram-se também ensaios políticos sobre temas como a invasão estadunidense ao Iraque e o muro de Israel na Palestina.

Raymond, por sua vez, é um ardoroso defensor da liberalização do uso de armas, tema usualmente mais ligado às bandeiras da direita liberal. Seu exato oposto.


Linus, por outro lado é (ou era)

- Jovem, menos de 40 anos, com mais identidade com novos ambiciosos programadores como Raymond (e não os velhos hackers)


Raymond não esconde que achava melhor colocar Stallman de lado.

Poucos meses após a a fundação da OSI, falou sobre sua estratégia para conquistar a Netscape: We worked out some strategies and tactics. First conclusion: The name "free software" has to go. The problem is nobody knows what "free" means, and to the extent that they do think they know, it's tied in with a whole bunch of ideology and that crazy guy from Boston, Richard Stallman.”


O repórter se assusta com o ataque de Raymond a um dos ícones. E ele se explica e se revela, ideologia (a do SL) é um peso a mais:

“I love Richard dearly, and we've been friends since the '70s and he's done valuable service to our community, but in the battle we are fighting now, ideology is just a handicap. We need to be making arguments based on economics and development processes and expected return. We do not need to behave like Communards pumping our fists on the barricades. This is a losing strategy. So in order to execute that, we needed a new label, and we brainstormed a bunch of them and the one that we finally came up with is "open source."


A caracterização da atitude de Stallman como comunista (o termo não diz exatamente lembra, mas a analogia é evidente) não é uma novidade e é um dos argumentos dos defensores do software proprietário. Communard é usado por Raymond em alusão ao governo socialista que comandou Paris por menos de três meses, em 1871. Os trabalhadores que tomaram o poder, na ocasião, também ficaram conhecidos por terem deixado intactos bilhões de francos do Banco Nacional da França, dinheiro que depois foi utilizado para financiar o exército que derrotou a Comuna. Longe de dar um exemplo fortuito, Raymond está lembrando a todos de um momento em que a hesitação em adotar uma postura “pragmática” acabou condenando todo o movimento.

Além disso, está aceitando - e não negando - uma metáfora proprietária


* Mundo natural

A metáfora com o mundo natural encontrou grande ressonância nos ouvidos das empresas e nos países centrais. Para aqueles que estão em condição privilegiada em termos sociais, entender sua condição como derivada de uma maior capacitação, inteligência ou habilidade, parece ser muito mais adequado do que atribuir a diferença a injustiças sociais.


Definição OSI = Definição Debian + explicações. Vejamos


A definição de Código Aberto1 usada pela Open Source Initiative é a Definição Debian de Software Livre, com a mesma formulação, apenas com a omissão das referências ao Debian. No entanto, a definição de código aberto conta também, em cada item, com uma explicação, uma justificativa de sua existência, o que não existe na definição Debian.


Item 3

“3. Trabalhos Derivados

A licença deve permitir modificações e trabalhos derivados, e devem permitir que estes sejam distribuídos sob a mesma licença que o trabalho original.

Fundamentação: A simples habilidade de ver o código fonte não é suficiente para apoiar a revisão independente e a rápida seleção evolutiva. Para que a rápida evolução se concretize, as pessoas devem ser capazes de realizar experimentos e distribuir modificações.”

Aqui há a menção clara ao “achado” de Raymond, a seleção evolutiva decorrente do modo de desenvolvimento de Linus Torvalds. O fim do item 3, explicitado pela fundamentação, é permitir a continuidade do método de trabalho, baseado na revisão dos pares e no encaminhamento de soluções autônomas, sem a necessidade de autorização do autor anterior. A possibilidade de alteração e distribuição da versão modificada já era algo permitido e incentivado pela GPL, porém, com outros fins, que não a melhoria técnica. Não se trata de abdicar do controle, da autoria, da propriedade em nome “progresso”, em nome da melhoria do software e da correção de erros. O que existe é uma noção de autoria coletiva, direitos coletivos e, portanto, bem coletivo, comunitário.


Vejamos um trecho do sub-item c do item 2 da GPL, que fala sobre a liberdade para a modificação:

“Portanto, esta cláusula não tem a intenção de afirmar direitos ou contestar os seus direitos sobre uma obra escrita inteiramente por você; a intenção é, antes, de exercer o direito de controlar a distribuição de obras derivadas ou obras coletivas baseadas no Programa.”


Há ainda outro elemento que distingue a fala de ambos e as relações derivadas do modelo que propõem. Raymond refere-se com freqüência à satisfação dos usuários, como vemos acima, mantendo a separação produtores/consumidores. A marca do discurso de Raymond não é a eliminação da desigualdade, é a eficiência técnica de um método que estabelece uma “seleção natural”, pela qual o software “evolui”.

“O open source ou é lucro líquido tanto para consumidores como para produtores, que atuam em interesse próprio ou não é. Se for, você não perde. Se não for, vc não deve vencer. “


* Retomada da distinção

No discurso open source/código aberto, a persistência da existência da figura do usuário/consumidor pode ser verificada. Para as empresas, interessadas no negócio software (seja ele a venda de código aperfeiçoado ou serviços), a figura do consumidor precisa continuar a existir. A possibilidade de alteração do código tornou-se algo não essencial, embora ainda desejável. Mais importante que a não-distinção entre produtor/usuário serão os milhares de olhos capazes de inspecionar o código e fazê-lo evoluir para algo melhor. Essencialmente, na licença, nada muda, mas surge uma nova instituição (a Open Source Initiative) e novos advogados que enfatizam as vantagens técnicas e não a alteração na ordem social.


Vejamos o parágrafo que explica o que é open source na primeira página do website da Open Source Initiative: “The basic idea behind open source is very simple: When programmers can read, redistribute, and modify the source code for a piece of software, the software evolves. People improve it, people adapt it, people fix bugs. And this can happen at a speed that, if one is used to the slow pace of conventional software development, seems astonishing.

We in the open source community have learned that this rapid evolutionary process produces better software than the traditional closed model, in which only a very few programmers can see the source and everybody else must blindly use an opaque block of bits.

Open Source Initiative exists to make this case to the commercial world.


Algumas expressões merecem ser destacadas pois são as marcas desse discurso derivado da idéia de “seleção natural”. Está dito: “o software evolui/the software evolves” - como se fosse uma espécie animal para a qual os programadores são os responsáveis pela seleção. Também: “Quando a comunidade do código aberto aprendeu que esse veloz processo evolucionário”. E mais: “Há 20 anos esse momentum está sendo construído nas culturas técnicas [em oposição a ideológicas ou idealistas] que construíram a Internet...”, ou seja, um fenômeno alheio aos ideólogos, construído em um ambiente pragmático., o contrário do que Raymond diz ser a FSF.

Elemento inerente ao processo evolutivo, a competição, por outro lado, é algo que, se acirrada, não é vista com bons olhos por Stallman – e principalmente como elemento do capitalismo. No Manifesto GNU, que escreveu em 1985, antes da redação da GPL, e como texto-convite, diz ele:

“O paradigma da competição é uma corrida: recompensando o vencedor, nós encorajamos todos a correr mais rápido. Quando o capitalismo realmente funciona deste modo, ele faz um bom trabalho; mas os defensores estão errados em assimir que as coisas sempre funcionam desta forma. Se os corredores se esquecem do porque a recompensa ser oferecida e buscarem vencer, não importa como, eles podem encontrar outras estratégias -- como, por exemplo, atacar os outros corredores. Se os corredores se envolverem em uma luta corpo-a-corpo, todos eles chegarão mais tarde.

Software proprietário e secreto é o equivalente moral aos corredores em uma luta corpo-a-corpo. É triste dizer, mas o único juiz que nós conseguimos não parece se opor às lutas; ele somente as regula ("para cada 10 metros, você pode disparar um tiro"). Ele na verdade deveria encerrar com as lutas, e penalizar os corredores que tentarem lutar.”

Concluindo

Um pouco do que conseguimos perceber aqui, traçando o percurso desses discursos, foi como a criação de uma entidade (a Open Source Initiative) de um termo em particular (open source) foi algo de grande impacto na aceitação do movimento por uma parte da sociedade. Para melhor retratar o posicionamento desses termos, o quadro abaixo será interessante:

software livre código aberto software proprietário (comercial) liberdade eficiência/evolução realidade/experiência GNU/Linux Linux Windows FSF OSI Microsoft

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Evento FISL 8.0
Título Software livre e código aberto: dois movimentos?
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Autores RafaelEvangelista
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Maturidade Amadurecendo
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