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CoberturaWiki :: Cobertura de uma palestra que não existiu

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rev 1  -  23 Apr 2006  -  TiagoVaz
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Houve uma palestra no FISL 7 que foi cancelada por falta de público. Tratava-se da primeira apresentação oficial do maior projeto de inclusão digital do Brasil* num evento internacional. O título da apresentação era "Programa Identidade Digital: Programa de Inclusão Digital do Estado da Bahia", que seria ministrada por Emerson Casali, atual Subsecretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado da Bahia.

O PID hoje abriga aproximadamente 100 Infocentros de acesso público e gratuito nos estados baianos, onde, além de utilizar 99%** de softwares livres na sua solução, também realizou um papel importante no desenvolvimento de softwares livres para gestão desses infocentros. O número de acessos ao sistema designado por "Berimbau" ultrapassa hoje a faixa de 1 milhão em pouco mais de um ano passado o processo de implantação.

Porém, nem o grande estudo de caso da utilização do Debian, LTSP, GNOME, nem o desenvolvimento de novas soluções livres, nem os números quantitativamente expressivos, nem a exposição das importantes etapas de implantação e logística, nem os resultados do projeto foram suficientes para sensibilizar pelo menos uma pessoa diante de um público de 5.339 presentes no Fórum Internacional de Software Livre. Sim, a apresentação foi cancelada por falta de interesse do público. Há algo de muito estranho nisso. E eu tenho algo a dizer.

O PID é um programa de inclusão digital subsidiado pelo estado. Na Bahia, o estado ainda sofre nas amarras do PFL, que tenta se reeleger neste ano na figura do atual governador Paulo Souto. Um dos grandes pilares para o sucesso da sua reeleição - que é quase certa - é o programa de inclusão digital, que vem sendo ovacionado frequentemente na mídia especializada, ou seja, nas empresas que pertencem a familiares do senador ACM, como o jornal Correio da Bahia e a TV Bahia, acrescentando-se também as mídias oficiais da própria Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do estado. Uma apresentação do projeto num evento do porte do FISL, sem dúvida, renderia bastante propaganda, e não foi à toa que o representante-mor do projeto foi enviado. Quase certo estou de que essa palestra não passou pelo processo comum de seleção do Fórum, mas que foi uma estratégia eleitoral mal sucedida. Pois bem, este é o primeiro ponto, que justifica (ou não justifica) a presença do PID no evento.

O segundo ponto é de fato mais controverso: por que não houve sequer um participante interessado na palestra que trata de um grande projeto de inclusão digital com software livre? Eu posso tentar responder com outra pergunta: onde estão os fontes? Essa questão significa muito mais que os códigos desenvolvidos pela equipe, mas a própria essência do PID. Quando comecei a trabalhar neste projeto, no papel de desenvolver a solução que rodaria nos infocentros baianos, tentei fazer com que todo o processo de desenvolvimento seguisse modelos colaborativos, criando repositórios públicos, divulgando o projeto em listas e licenciando sob GPL todos os softwares desenvolvidos, processo que foi razoavelmente detalhado na minha monografia final de graduação. No entanto, desde que me afastei do projeto, os respositórios, documentações e imagens de CDs foram tirados do ar, o que ao meu ver, comprova a pressão que eu já sentia lá dentro desde a primeira reunião que participei na SECTI/BA, onde o palestrante Emerson Casali deixou claro sua posição contrária ao software livre, ao rebater uma questão minha com a proposição de que ela estava "carregada de ideologia", clarificando também que a SECTI não seguiria qualquer modelo ideológico que o software livre viesse sustentar. Dias depois fui advertido oficialmente sobre uma queixa de Emerson à coordenação do projeto, onde eu o havia insultado em público e não deveria repetir, à pena de ser demitido. Desde então não mais fui convidado para as reuniões.

Eu sentia que o PID se fechava pro mundo da competição, do receio do segredo revelado, visto que tecnicamente o projeto começou a chamar atenção pelo seu sucesso e instituições governamentais/privadas/públicas mostraram explícito interesse em conhecer o que havíamos desenvolvido. Assim, argumentos como "não divulgaremos o código, pois a oposição poderá usar bugs dele pra atacar na campanha", ou "divulgaremos somente pra parceiros que assinarem um termo de colaboração" surgiram e fizeram o grande projeto fechar-se num cerco limitado e vazio, resultando num desinteresse geral da comunidade, fato consumado com o sabor do desprezo nesse evento.

Pude apreciar pela TV software livre que no exato momento da palestra que não aconteceu, uma outra se dava com a sala cheia, a do Debian-BR-CDD, que é a base tecnológica da solução do programa de inclusão digital da Bahia. Não posso negar minha alegria de assistir de bem longe a justiça sendo feita, e acima de tudo, constatar a grave consequência que a falta de inteligência dos mentores do PID proporcionou à campanha do PFL, que nunca foi boa coisa para o estado.

* slogan utilizado na campanha publicitária do projeto em 2005
** os infocentros utilizam plugins da sun e macromedia

CoberturaForm
Evento fisl7.0
Título Cobertura de uma palestra que não existiu
Horário 22/04/2006 - 18:00
Autores TiagoVaz
URL http://fisl.softwarelivre.org/7.0/papers/pub/programacao/491
Maturidade Maduro
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